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I

QUANDO TUDO DECEPCIONA, só o inusitado tira o sujeito do estado de torpor.

E por que miríade de sentimentos passa Horácio ao deparar com a escultura de Diana na visita ao Metropolitan em Nova Iorque. Há pouco sentira raiva. Na bilheteria, apesar do valor sugerido, a doação era livre. Ele deu trinta dólares. A moeda norte-americana equivale à brasileira neste 1995, quando se completa um ano de Plano Real, mas a esposa lhe disse, com firmeza, que não deviam abusar. Ele a fulminou constrangido, vermelho como os cabelos. Arte pressupõe apoio e manutenção, você não entende? Ficou quieto. Agora caminha de olhos baixos pelo museu até encontrar a flecha que ressignificará sua vida.

A escultura dourada eleva os olhos de Horácio. Mas o olhar da Deusa vai além. Diana está prestes a lançar a flecha ao alvo que já dominou com a mira. A postura convicta, harmônica, forte, indica que alcançará o objetivo. Seu corpo tem as dimensões perfeitas. E ela está nua. Horácio se acalma. Aplaca a raiva da esposa. Contorna o pedestal para apreciar a beleza, graça e movimento de cada ângulo. Olha de novo para o seu rosto, para a flecha. É como se Diana quisesse lhe dizer algo, lhe dar uma ideia. O que importa? Se ele não escreve mais, de que interessa o que existe por trás das faíscas de inspiração? É que ela é a própria ideia. Do tipo que faz um escritor tomar notas para descobrir, ainda que no ato da escrita, o real motivo por que a anotou. Ou que pode nunca passar de uma nota. Mas ele não anda mais com cadernetas. …


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Bruna e Júlio − Segunda-Feira — 8:00 AM — reunião com clientes novos − interiores e iluminação − novos ricos sem estilo definido

– Vamos, Bruna, acorde! — diz Júlio às seis e meia da manhã.

O casal é sócio de um renomado escritório de arquitetura e inicia os compromissos profissionais às oito horas.

Bruna precisa xingar Júlio — odeia levantar cedo –, acordar as crianças, preparar o café da manhã enquanto elas tomam banho, tomar banho enquanto elas tomam o café da manhã, tomar café ou não, levá-las à escola com engarrafamento na ida e na volta, e ir para o escritório. …


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Inspirado na canção de Bob Dylan Girl from the North Country

Quando cheguei atrasada no show, esgueirando-me entre as pessoas para arranjar um lugar em frente ao palco, ainda ouvi Boa noite, St. Paul, um homem sempre volta pra casa. Para estar entre velhos amigos ou por um amor verdadeiro. Mas as fãs não me deixaram passar da terceira fila. Os cumprimentos do artista às vezes ocorrem no meio da performance, então não sei quantas músicas ele já tocara. Iniciaram-se os acordes de uma canção, e eu levei cotovelada de uma maluca, direto no queixo. Doeu. …


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O chope corria pelo encanamento que o pai engenheiro montara no pátio, embaixo da parreira. A cada aniversário, uma nova produção. E tinha que comemorar no dia. Depois do churrasco de carne gorda na mesa de cavalete, o pavê de amendoim da minha mãe, famoso, com creme de manteiga. Além dos brigadeiros à moda infantil, em forminhas laminadas, que o aniversariante não dispensava. Os homens no concurso da gaitada mais alta. As mulheres ouriçadas pelo título de melhor quituteira.

Eu, quieta, ainda na barriga da mãe, minha doceira preferida. No dia anterior, estivera agitada. …

About

Cris Vazquez

Escritora, Mestra em Literatura e colaboradora do site A Boa Prosa.

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