O Álvaro e eu

Como acontece a qualquer mulher, a dada altura da sua vida, um dia apaixonei-me por um homem que nunca existiu. Chamava-se Álvaro e iniciou-me na má vida da poesia. Foi uma paixão cega. Uma entrega total. Mesmo sabendo que ele tinha uma vida quádrupla, eu não quis saber. Olha que ele escreve com outros nomes, disseram-me. Não quis saber. Quando nos apaixonamos só vemos o que nos dá jeito ver. O resto não interessa. Nós é que vemos os verdadeiros eus. Aqueles que só o nosso amor é capaz de revelar. E o Álvaro era o melhor que havia no Fernando. Mas, como a todas as mulheres, a coisa correu mal e um dia vi que ele nunca iria mudar por mim. Paciência. Ficou-me a poesia. Essa sim, ao contrário do amor, redime tudo. No outro dia passei pela janela da casa onde nasceu. Talvez fosse a do quarto dele. De um quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é. Uma janela de um quarto no Chiado. A outra, do quarto em Tavira, nunca conheci. Não chegámos a esse ponto.

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