Portas destas há poucas

Ontem passei à porta da chapelaria Azevedo, no Rossio. Tenho ideia de lá ter entrado meia dúzia de vezes com a minha mãe quando era miúda. Não me lembro se alguma vez comprámos um chapéu para mim. Mas lembro-me de ficar fascinada com a loja. Com os chapéus empilhados por tamanhos nos armários com portas de vidro. Pensava, mas quem é que usará estes chapéus? Quando eu era miúda ninguém usava chapéu. Só os velhos e as crianças. Os únicos que, pelos vistos, se tinham de proteger do sol. Os outros chapéus das vitrinas, embora bonitos, pareciam-me desajustados, de uma Lisboa talvez ainda a preto e branco.Um tempo onde ainda se usariam “bonets” e “chapéus coloniais”. O meu pai tinha uma prima, muito mais velha, que vivia em Alvalade e que tinha camilha cheia de molduras com fotografias antigas. Uma delas era uma fotografia de um grupo de homens numa caçada em África. De calções, meias pelo joelho e chapéus. Talvez os tivessem comprado na chapelaria Azevedo. Enfim, ali vendiam-se chapéus que só podiam ser usados em fotografias antigas.

Ontem reparei que a chapelaria estava aberta. Agora os chapéus voltaram a usar-se nas cabeças de outros que não velhos, nem crianças. Vejo muitas mulheres com capelines de feltro. Deve ser moda. Ainda bem que há portas que podem esperar abertas. Chapéus há muitos, mas portas destas cada há poucas. E cada vez menos.

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