Eles se secam, imunes
Expulsas do útero-mar, despertamos na costa. Abrimos os olhos, alheias. Puxamos o ar — cada gota afogando um poro, inundando o corpo que nunca mais será de outro elemento. Suor choro saliva e leite tatuam sua pertença em nossa pele — seremos água, líquidas para sempre.
Eles se sacodem — mãos espalham areia. Em um segundo secos, imunes. Livres do elemento, que evapora sob o sol. Seus corpos repele, as gotas, que caem pela terra — lágrimas que se apagam no abraço de uma toalha.
Desde crianças sabemos do risco e sedução do mar. Eles temem o fundo; nós ansiamos pela dissolução em êxtase e espuma, onda batendo e desfiando na costa. Subtil formação distante ganhando força, até que de repente seu furor quebra em rochedos, recifes, corais. Em nossos corpos, rolando vazios de ressaca.
O homem teme a corrente puxando-o para baixo — para nós, baixo e cima nada mais é que a costa oposta. Aquela que nunca conseguimos alcançar.
Assistimos ao embate água — homem flutuando no sal de um mar que apaga nossos contornos. Porque em nós o elemento nunca escapa, escondido e intacto no úmido entre nossos pelos. A matéria vertente embala a pele e dissolve fronteiras, unindo vozes num único som.
Diluídas no grande mar que nos cerca, somos ondas, peixes, ostras, tubarões. Lagostas, tsunamis. Peixes — olhos de naufrágios e afogamentos, o coração leal a um reino aquático, dizendo não à gravidade terrena. Insistindo na alquimia respiração, oxigênio e ar.
Ao menos até
( ) aprendermos a nos secar como eles
( ) conter(tar)mo-nos ao aquário
( ) dissolvermo-nos na espuma alcóolica, sem som
( ) habituarmos os pés na terra arenosa, olhos em outro reino
( ) dominarmos a alquimia subaquática aqui no solo, sem medo. Debaixo do sol.