Horas

As ondas vêm e vão. Águas que se diluem em espuma, desmanchando-se na areia clara, embranquecendo os pensamentos. Na cama ela espreguiça o vazio, os olhos perdidos no teto, os dedos encolhidos debaixo do travesseiro. As horas passam e ela sobrevive mais uma noite. Estendendo os devaneios por mais algumas horas de alívio. 
Amanhã saberá, não, não saberá. Amanhã seu corpo estremecerá ao primeiro gole de café, a água gelada no rosto oleoso, as olheiras pedindo corretivo no espelho. E o embalo do cigarro em jejum, na solidão da cozinha. Amanhã, daqui a algumas horas.

Por enquanto ela imagina o mar, como lhe ensinaram: as ondas indo e vindo num barulho compassado, sinfônico, hipnótico. Inspira, imagina a onda vindo; expira, visualiza a espuma voltando. Mas é inútil; com ela não funciona.

Porque entre uma onda e outra vem a maresia, e a espuma traz algas que lembram aqueles cabelos negros, espalhados pelos lençóis em confusão, e ela sente o cheiro deles ainda pelo corpo e o pulsar do coração no coração batendo junto, mais alto que a música… mas até o som do coração…até esse som. Confunde, desperta, não a deixa apagar a torrente de imagens e finalmente adormecer.

Afundando na cama, ela inspira o escuro, espera que a noite enfim irrompa com violência sobre a mente, ressecando as memórias. Espera que a memória do cheiro passe, que os dedos esqueçam o caminho daquele rosto.

E decide, nervosa, que afinal é amanhã.

Porque hoje a cidade inteira dorme e ninguém ouve, e pela manhã haverá banhistas e crianças e babás na praia, trabalhadores nos ônibus, estudantes nas escolas e ninguém, ninguém nunca ouvirá. Como nunca ninguém conseguiu ouvir. E para quê o despertar lúcido da manhã, o calor do sol, para quê estes arranha-céus abafando os sons e bloqueando as imagens, para quê, se nem a própria pele aguenta. Se ela empalidece em angústia.

E para que sustentar tantos olhares, se todas as feridas já foram mais do que analisadas, visitadas, reabertas e cicatrizadas?
 E amanhã, ela diz a si mesma, tomando o comprimido rosa que a faz galopar pelo sono.

Agora ela pousa de volta a cabeça no travesseiro. Adormece com os dedos encolhidos como conchas, debaixo dos ouvidos; sonha com o mar, as ondas. Algumas sereias cujo silêncio é mais enlouquecedor que as próprias canções.

Agora ela dorme — e espera por quando tiver coragem.

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