Ser ou não ser Verônica? Por Francine Maschio

Nos últimos dias uma grande parte do Brasil vem acompanhando o caso de espancamento da travesti Verônica Bolina.

Vitor 2015 — edição da rashtag de origem desconhecida

O que fez com que o caso chegasse à militância corriqueira do Facebook foi uma foto que teria caído na internet onde a travesti se encontra no pátio de um presídio algemada com os seios de fora e com o rosto totalmente desfigurado. O espancamento teria acontecido enquanto a moça estava sobre a tutela do Estado, um ato que confirma a correlação de forças entre os policiais e o povo. A ênfase das revoltas que se lê pelas redes sociais é o fato de ser uma travesti, algo que afirma os abusos de poder da policia e a condição de rebaixamento e desumanidade que os transexuais são submetidos.

Verônica é acusada de agredir uma senhora de 73 anos. A senhora em questão era sua vizinha, e segundo o Portal R7 de noticias, a senhora se encontra com o nariz e um braço quebrados, marcas roxas pelo corpo, ligamentos das pernas rompidos, vários pontos no couro cabeludo e sofreu a perda de todos os dentes da parte superior da boca.

Após a agressão, Verônica teria sido levada a delegacia onde lá teve um desentendimento com um carcerário e o agrediu mordendo uma de suas orelhas onde daí supostamente teria saído as fotos relatando o abuso que a moça teria sofrido na delegacia.

É inegável que a forma como a situação se deu na delegacia foi de total equivoco. Não é possível que para conter uma detenta ela precise aparecer com o rosto desfigurado. O que nos faz pensar em várias coisas que aconteceram de maneira que não deveriam, por exemplo: de acordo com a lei um detento transexual tem que ser encaminhado para celas do sexo em que eles se reconhecem ou junto com outros transexuais, o que não foi o que aconteceu com Verônica que foi colocada em uma cela com homens. Outro caso que é bem intrigante é o fato da moça aparecer sem sua peruca e suas roupas, algo que não teria motivos de terem sido tirados da detenta, mas acho que o ponto que, mas nos faz pensar é: como uma foto que expõe a travesti já desfigurada, algemada e sem roupa no pátio de um presídio é divulgada quando a mesma ainda estava sobre tutela dos policias? Muitas perguntas sem respostas.

Fotos do portal R7

Mas o que faz nossos olhos não estarem voltados também para a senhora de 73 anos que foi agredida pela travesti? Um erro não justifica o outro, os policias não tinham autoridade e legitimidade para julgarem Verônica levando em consideração seus ideais particulares, uma vez que temos um tribunal de justiça para que pessoas que cometem atos fora das leis sejam julgadas.

Verônica foi vitima sim, como muitas outras foram. Mas a senhora também, ela apanhou e até o presente momento sem grandes esclarecimentos do por que. Não importa o gênero ou orientação sexual do agressor, ele merece ser julgado, não com socos e tapas como foi feito, mas de acordo com as leis.

É esse tipo de militância que me fez chegar a presente reflexão.

A militância que foi incitada pelo ódio, ficamos tão ouriçados pelas atrocidades em que a travesti foi colocada que nos esquecemos de pensar no outro lado, o lado que — neste caso — também foi agredido e está em um estado de saúde gravíssimo considerando sua idade. Esquecemos-nos de dar amparo ao outro que também sofre, sem pensarmos nas leis cometemos o mesmo erro que os policias, somos agressivos e fazemos julgamentos levando apenas nossos ideais como verdade. Devemos prezar pela dignidade daquele que será julgado pelo crime que cometeu, mas também devemos prezar pela saúde de quem sofreu.

Por Francine Manzo Maschio
estudante de Letras na FCL-UNESP/Assis

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