TE AMO, MAS MORO NA BAIXADA

CRÔNICA POÉTICA
Sep 4, 2018 · 3 min read
Foto por Márcia Foletto

Acordar cedo e ainda não ser cedo o bastante pra chegar naquele trampo que fica há 2 horas de casa. Pegar trânsito até que os horários calmos se tornem turbulentos. Hora do rush? Mais fácil perguntar sobre ‘’hora sem rush’’. Nunca nem vi. Experimenta morar na Rio-São Paulo ‘procê’ ver. “Agradecemos pela preferência” é a mensagem eletrônica que o busão me força a ler. Explica, como é isso se minhas opções eu conto em uma mão? Tô sempre dizendo: falta de opção é opressão.

Corre! Por 3 segundos o tempo no ponto não vira mais 30 minutos. Meu bairro é longe do centro do próprio município, como que nos meus poucos dias de lazer você quer exigir que eu chegue antes das cinco? Não tem nada no meu lugar, cultura e lazer estão definitivamente longe, mas tem um punhado de bar e muita igreja evangélica pra você orar.

Ainda sobre meus atrasos: desculpe. Saí de casa, fui trabalhar e, depois um metrô lotado sentido Pavuna eu tive que pegar. Sabe como é, também preciso estudar. No meu lugar não tem faculdade, daí me desloco até o lugar de Arlindo Cruz e no resto da semana fico por Campo Grande. Tava rindo e lembrando aqui… Até ano passado tava lá na unidade da Barra da Tijuca, um lugar difícil de se chegar e se aturar. Mas não paro por aí. Costumo dizer que sou uma nômade-universitária, que cansada dessa jogada chega mais uma vez esbaforida e quase como sempre… atrasada.

Desculpe se disse que iria a algum rolê e desmarquei dias ou horas antes. Analisei bem e vi que não tinha como voltar pra casa. Não existe transporte para quem sai da Lapa às 2h da manhã aqui do meu lado da Baixada.

Falando nela, dizem que é cruel. Tem certeza? Burguês bate panela no centro, diz que quer melhorias, mas não se comove quando os daqui tentam mudar suas vidas pedindo um emprego pra sustentar suas crias. E se você nunca foi recusado numa vaga de emprego por precisar pagar 2 passagens a mais faça-me o favor de calar sua boquinha. “Bairros-dormitórios” que fazem o maior barulho, mas claro, é Baixada, nada de holofote. Querem deixar todo mundo no escuro.

Tem sido correria e quase ninguém vê. É muito fácil apontar o dedo e dizer o que você tem ou não que fazer. Sua mente quase não se cansa e seu corpo no transporte público quase não balança. Quatro reais e cinquenta e cinco centavos e quatro e cinquenta e cinco da manhã. Vida de intermunicipal custa caro assim como a saúde dos meus pais, que de segunda a sexta acordam cedo pra ver um dos meus sonhos virar realidade. Pais, guentem aí, pois um dos seus cases de sucesso se forma já já.

Mas deixa eu ir, me adiantar. Tenho mais um busão pra pegar. Se eu me atrasar à pé vou ficar, pois já é tarde, quase fim da noite e meu busão vai parar de rodar.

Aos amigos, desculpe por não poder ficar. Te amo, mas moro na Baixada.

CRÔNICA POÉTICA

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