A alma encantadora do Bosque da Freguesia

Você acorda e se expande na cama. Abre os braços, geme de sono, mexe os pés. Pensa: meu Deus, preciso levantar. Geme de novo. Estica o braço, pega o celular, confere as horas. Pensa: ok, dá tempo. O whatsapp apita notificação. Você olha quem mandou mensagem. Não resiste e responde uma. Depois mais outra. Olha a hora e pensa: ok, não dá mais tempo. Levanta, o gato cinza te estranha e você se olha no espelho do quarto. Descabelada. Sexy, até. Levanta.

Abre a porta, que range em desacordo. O gato branco aparece em seus pés, te impede de caminhar direito. Quer comida. Você também. O café está posto, a mãe já fizera. É orgânico, de 25 conto, sabor especial. Claro. Pega a caneca. O gato se alimenta sozinho. Coloca açúcar e pensa: como será que está o bosque hoje? Esse raciocínio curto feito de frases e pontos. Olha a varanda. Está sol?

Pensa: sim, finalmente. O cheiro de mato do Bosque da Freguesia, seu verde, suas trilhas e as crianças inoportunas. Sorriso. Força para não voltar à cama.

De tênis no pé e café na barriga, você sai de casa. Coloca a chave na lateral da calcinha, deixa o celular na escrivaninha e avisa à mãe: tô indo ao Bosque!

Pé na rua Araguaia. O paralelepípedo desigual te desequilibra. Vira à esquerda, atravessa a rua. Evita os cocôs de cachorro e encara a placa que pede para não deixarem ali o cocô do cachorro. Vira à direita, entrando na rua Xingú. Segue. Passa pelo ponto amaldiçoado. Atravessa a rua Mamoré. Segue. Vira à direita, entra na Estrada dos Três Rios. Movimentação da rua principal do bairro de manhã, com a fila de ônibus e os carros engarrafados. Segue.

No final das Três Rios, o semáforo fica vermelho. Atravessa. Passa pela padaria Nova Belém, com um melhor milkshake de chocolate melhor que o das redes de fast-food. Lembra do sanduba de queijo minas com ovo que comia com as amigas depois da prova na escola, aos sábados. Segue. Atravessa à direita, perto do atacadão Assaí — que ninguém sabe como se pronuncia.

A bandeira do Brasil está hasteada do lado de fora do Assaí. Já começa a ver o mato e o rio de esgoto aberto. A barraca de caldo de cana, em frente, anuncia rodízio e te desafia a tomar 50 copos. Encara e relê. Pensa: é possível? Segue.

O Bosque da Freguesia está ali desde que se entende por gente. O campo de futebol, as aulas de yoga e de pintura; o espaço para aniversário; o parque infantil para descansar as pernas; a criação de abelhas; as placas com nomes dos pássaros e mamíferos da mata atlântica; as três trilhas largas e tranquilas.

São 31 hectares de reserva florestal com proteção ambiental no meio de um bairro pequeno, com duas entradas fechadas às 17h, ao pôr-do-sol. Não fosse o horário restrito e a dependência ao humor dos céus no dia, seria o melhor passeio para se ter na rotina. Você sente o cheiro de planta úmida e escolhe a trilha da direita, menos conhecida e, portanto, a mais calma. É a do sabiá.

A terra batida, branca e com pedras, abre o caminho na pequena floresta.
Solta os bichos, cara.
Solta.

O tigre corre e encontra seu canto no mato. Deita e lambe a pata, como um grande gato manhoso. O elefante teima em andar, como se estivesse com preguiça. É imenso, mas sábio, e não faz nada à toa na vida. O gavião voa livre, fácil, só esperando por esse momento. A égua gosta do caminho reto e sem obstáculos e pede para você ir com ela. Você, então, corre.

Vai. Solta isso tudo. Solta os bichos. Deixa tudo para trás.
Vai brincar com seus poderes no Bosque da Freguesia.
Amanhã, está todo mundo descansado e a corrida vai ser outra. Segue.

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