A arte de procurar o legume certo no Seu Gastão

Todo sábado, minha mãe arrastava um carrinho de feira, com grades douradas e frágeis, e retornava com alface, couve, cenouras e pepinos para o suco verde dela. Às vezes, maçã para adoçar a gororoba na perspectiva de que os filhos, finalmente, topassem provar.

Tudo vinha do Seu Gastão, uma casinha singela no estacionamento do Rancho Verde, restaurante conhecido há gerações na Freguesia, que tem um outdoor de sapos e anuncia ter o melhor bacalhau. Vive cheio, bem se sabe.

Chegou, então, o dia em que eu substituiria minha mãe nessa tarefa de prover uma casa vegetariana com legumes e frutas frescas. Recebi a listinha. Fui, a contragosto, mimada que só em ficar no sofá lendo jornal. Preguiça.

A rua Araguaia, como o leitor já bem sabe, é uma das últimas com paralelepípedos. Dizem que é porquê o dono de um dos colégios da rua tem vários estabelecimentos e prédios ali e, com o seu poder, não deixa asfaltarem liso. Será?

No caminho, a sofrência de um braço fraco contra as irregularidades da rua e da calçada. Imagina quando estiver cheio esse carrinho!

A lista incluía uma melancia.
O drama já começava aí.

Cheguei. A primeira vista foi a da foto, da TV ligada e do quadro de Jesus na parede.

Seu Gastão, afinal, era um senhor de 70 ou 80 anos, fios brancos na cabeça e uma mente ainda afiada para estar no caixa.

Peguei a lista. Deixei o carrinho num canto. Beleza. Como se escolhe legume?

Minha mãe me instruíra a perguntar. Ela ama o provérbio “Quem tem boca vai a Roma”, sem saber que eu era mais tímida do que sou hoje e, portanto, não ia perguntar nada a ninguém, obrigada. Eu só olhava para baixo e queria passar sem ser notada. A gente tem umas ideias meio sem nexo quando se é jovem.

Era um sábado triste e duas irmãs davam conta do atendimento.
Olhei pra cima. Peguei um saco escuro.
Olhei pra baixo. Peguei uma cenoura.
Olhei pra lista. Peguei mais cenouras.

Fiz as compras, coloquei no carrinho e fui pro caixa, onde estava Seu Gastão. Eu ia cumprir a missão sem, de fato, ter pedido qualquer ajuda. Vitória.

— A menina quer isso mesmo? — disse ele, e as duas irmãs me olharam.

Fez-se silêncio. Não entendi nada.
Paguei. Recebi trocado. Agradeci ao homem.

Fui pra casa naquela força de vontade de zunir o carrinho apartamento acima. Cheguei, bebi um copo d’água. Minha mãe começou a esvaziar as sacolas.

Ela precisou voltar ao Seu Gastão, puta da vida.
Eu havia comprado os legumes apodrecidos, que ficavam numa caixa embaixo das prateleiras que, estas sim, estavam com a parte resistente da safra.

Nessa hora, eu me perguntei se era possível ter olhos e ser tão cega. Às vezes a gente escolhe ter uma vida tão simples e sem cores. Não faz sentido.

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