A rua Araguaia e as histórias da infância

O Leblon de Jacarepaguá. Assim a querida Veja apresenta a Freguesia.

Na foto da matéria, mãe e filha posam sorridentes na frente da nova construção no baixo Araguaia — uma rua tão extensa que tem “alto” e “baixo”, basicamente dividida por uma pracinha no meio. Pois bem.

Entre as histórias de quem já morou em quatro prédios nessa rua, não por vontades irresistíveis de encaixotar e embrulhar as mudanças, mas sim por pais divorciados que se fixaram em espaço próximo ao colégio dos filhos, nem tudo é feito de Photoshop de revista sensacionalista.

Eu nasci na Estrada do Bananal, primeira casinha na Freguesia, quando ainda era um bairro de casas e não prédios. Depois, só na Araguaia. Vamos lá?

Prédio 1: número trezentos e bolinha, de tons pasteis e marrons. Meu pai comprou um cachorro igualmente marrom, de orelhas compridas e caídas. Eu fiquei o tempo todo com medo, em cima do sofá, e o pobre au-au tinha que ficar preso no banheiro. Eis porquê nunca tivemos cachorros. Desculpa, gente.

Prédio 2: depois da ladeira, branco e azul marinho. Morávamos no terraço. Minha melhor lembrança: quando micos invadiram o apartamento e fizeram xixi na escada para o segundo andar. A porta da cozinha estava aberta e as frutas reluziam. Ali estavam 2 cachos cheios de bananas. Missão abortada. Foram expulsos pelo meu pai. Eu, criança, não sabia se ria ou chorava.

Prédio 3: um apartamento alugado, em que as paredes não faziam ângulo de 90 graus. O armário de madeira escura cruzava o quarto na diagonal. Os móveis não se encaixavam. Claramente construído antes do boom imobiliário tão falado, pois ali faltou uma mãozinha de arquiteto ou engenheiro. Melhor lembrança: havia uma varanda minúscula no meu quarto e, do nono andar, dava para ler livros em paz com a melhor vista pra… rua de paralelepípedo.

Prédio 4: o atual, de ladrilhos pequenos e em constante reforma. Arquitetura anos 30, mesmo síndico há 10 anos. Pior lembrança: antes da UPP da Cidade de Deus, a rua Araguaia era conhecida por roubo de carros. Tinha noite que aconteciam uns 3 de uma vez e o porteiro só torcia para nada passar por aqui.

Um dia, foi com a minha família. Saíram do carro para pegar biscoito no porta-malas, cheio das recentes compras no supermercado, depois do cinema.

Perdeu, perdeu! — poderia ter sido uma fala menos estereotipada? Talvez.

E lá se foi o carro, de carcaça encontrada por um policial cheio das correntes de ouro. O cara estava melhor do que qualquer classe média da Freguesia. Que falta fez aquele biscoito.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.