O ponto amaldiçoado na rua Xingú

Eu sei o que você está pensando. Tenha certeza de que já passou por lá.

É complicado. A rua Xingú, uma das últimas de paralelepípedo, é cortada pela principal Estrada dos Três Rios. De um lado, tem a pizzaria do Tio Frank, onde o garçom achava que eu tinha 18 anos quando tinha 13, e do outro tem umas lojinhas bem variadas. É conhecida por ter no seu início a Padaria Kúffura, do urso branco gigante com olhos de laser vermelho à noite. É, bem simpático.

Quando você anda pela rua Xingú, você repara em 1) como as árvores destroem as calçadas com suas raízes fortes e 2) que sempre tem um loja fechada, cujo chão ladrilhado é dominado por plantinhas inoportunas.

Eis o ponto amaldiçoado da rua.

É sério. Uma vez, fui em um restaurante ali. Não me recordo o nome.

— O pastel está demorando, né? Será que foram fazer o queijo, tirar o leite da vaca ainda…? — esforçava-se a minha mãe em deixar a saída divertida.

Não sei. Pergunta pro moço. — dizia eu, daquele mau-humor de fome.

Demorou muito para chegar a porção. Pouco depois, o lugar faliu e fechou.

Ano seguinte: um salão de beleza, no mesmo lugar.
Atendia ali uma senhora de cabelos ruivos e falsos, de unhas vermelhas, roupas vermelhas e cujo estabelecimento era branco e… vermelho. Fechou.

Ano seguinte: Bar do Adão.
“Porra, agora sim! Rede grande tem que vingar!”, eu pensava.

Felicidade de pobre dura pouco mesmo. O atendimento era ruim, mas ruim, não fazendo jus ao nome do bairro que o hospedava. Dava vontade de ir embora e não pagar, porque até aí os garçons demoravam no serviço. Valia a pena apenas o pastel francês, de catupiry, alho poró e camarão.

Comia escondido, talvez umas três, quatro, cinco vezes, porque pseudo-vegetariana tem essas quedinhas por comida do mar. Toda segunda-feira inventava de convidar os amigos, a mãe, a amiga de infância, qualquer companhia para pegar a promoção do sabor em dobro. Afinal, comida > ética.

Te contar que hoje o Bar do Adão está fechado. Já tem tempo, desde um escândalo de vigilância sanitária multando a rede. A notícia se espalhou, o vídeo viralizou e, mais uma vez, o ponto na Xingú ficou à venda.

Está lá. Acho que todo mundo já sabe da maldição do lugar e ninguém tenta mais abrir um comércio ali. Quem vai tentar quebrar esse ciclo em plena maldição de crise política, econômica e mesmo social?

Para mim, fica só o gosto da cerveja de mesmo nome: a Xingú. É escura, levemente amarga e aparece pouco nas prateleiras do supermercado. Difícil de achar. O dia está nublado e abafado, mas a cerveja desce gelada. Única sobrevivente. É complicado.

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