Se meus sapatos resolvessem falar

E tudo o que eles diriam sobre essa vida de observação.

Sempre tenho um tênis ou uma sapatilha do momento. Eu adoto um deles e, incrivelmente, combina com todas as cores e as roupas, seja isso verdade ou não. Uso até desgastar. E aí continuo usando ainda mais. Só paro quando está feio mesmo, impossível doar ou vender. Precisa ter um fim, morrer e ter seu descanso sossegado, ficar paradão depois de andar tanto.

Vira uma memória carinhosa. Imagina o tanto que esse tênis viveu comigo? Até onde ele me acompanhou? A que tipo de roubadas ele sobreviveu? O que ele diria dos rumos que decidi tomar? Será que ao virar à direita ele teria sugerido à esquerda? Será que ele me xingou quando pisei no molhado sabendo que não ia aguentar? Ou será que me conhece tão bem, justamente por ter estado comigo em todas as situações, por um bom tempo?


1. Se meus sapatos falassem, diriam que nascemos livres no mundo.

Posso ser fiel ao meu tênis, mas a verdade é que eu não consigo não ficar descalça. Sempre escolho modelos fáceis de sair do pé sem desamarrar. Para que complicações? Tiro e coloco sem grandes rupturas, como um “até breve” no canto do quarto, na entrada da sala ou debaixo da mesa do trabalho.

Eu tiro os sapatos no instante em que isso é socialmente aceito. E mesmo se não o for, como em uma festa ou em um discurso para o público avaliar sua história. Os sapatos me levam aos lugares, mas quem dita o rumo sou eu. Um depende do outro apenas por um breve momento. Livres, ficamos bem.

2. Se meus sapatos falassem, diriam que a vida é imprevisível demais.

Pode ser que eu ame a liberdade nos pés, mas a outra verdade é que eu me sinto bem em ter um parceiro pronto para sair já na próxima aventura.

Viajei para a Colômbia com um chinelo, esse tênis marrom e uma sapatilha preta. Esta última, eu jurei que jogaria fora quando retornasse ao Rio, mas o tênis teve seu fim primeiro. Motivo: morte de vida bem vivida. Enfrentou aeroportos, trilhas, baladas, rotina do trabalho, barcos até ilhas e mais.

Perdeu a cor, foi ficando grisalho. Foram dois meses de paixão intensa com a Colômbia. Nunca havíamos pensado que viveríamos a metade do que passamos, muito menos as pessoas que conhecemos. Na última semana da viagem, uma senhora do trabalho perguntou se eu só tinha esse tênis.

“Só trouxe esse”, eu respondi, quase ofendida com a sugestão de usar outro.

3. Se meus sapatos falassem, diriam que deveriam ter falado antes.

Agora, se meus sapatos resolvessem falar tudo isso, eu ficaria muito surpresa com a sabedoria de quem tem vivências tão profundas e ficou o tempo todo calado. Afinal, ter uma vida de quem apenas observa e acompanha… é boa?

Eu e você sabemos a resposta.


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