Vou-me embora para Freguesia: crônica diária da Serra Grajaú-Jacarepaguá


Acredito ter visto já todas as colorações no céu da Serra, do rosa claro do pôr-do-sol ao amarelo que se intensifica no nascer. Acredito já ter visto caveirão da polícia, ambulância e até limusine rosa de aniversariante. Às 5h pra faculdade e às 23h pra casa, não tem horário que eu não tenha passado por ali.

Já sei até a rotina da Serra. Um ponto antes, geral sobe. Vem gente da igreja do outro lado da calçada, vem ambulante sacudindo amendoim nas curvas, vem todo mundo que quer carona de graça, ficando ao lado do motorista.

É 600, 341, 390. Frescão 2114 nos momentos raros. É saber que seu ponto de ônibus está cheio porque trabalhador e estudante esperam juntos as mesmas linhas. É ter amigo ou namorado não querendo te visitar porque tu mora longe e os ônibus são ruins. São mesmo, né? Pera lá que o 341 estava com ar condicionado nesses dias. Só vi uma vez, mas vai que o problema é comigo.

Fui saber, aliás, que a carona na Serra substitui a possibilidade de roubo no ônibus. Ou seja, o motorista ajuda quem mora ali e o criminoso colabora no sossego. É tipo seguro: tu paga R$3,80 e garante celular e carteira no bolso.

Isso seria o jeitinho brasileiro ou é malandragem carioca mesmo?

As pessoas me perguntam se não é melhor ir pela Barra. Evitar esse caô.
Mermão, tu quer me ver três horas no trânsito?
Pior caminho não há.
A Barra é infinita e a minha paciência não.

A vantagem do caminho pela Serra Grajaú-Jacarepaguá é a paisagem. Era para ser uma mata protegida, mas tem favela e construções pichadas. Tem desmatamento, às vezes, e fica a fumaça sem sentido pairando no ar.

Dá raiva, mas você se acostuma. A mata é a melhor parte e, quando chove, tirando o medo quase certeiro de ter carro capotando na pista molhada, fica aquele cheiro bom de terra úmida, odor de flor, rastro de planta.

Tem o pôr-do-sol, a vista espetacular lá de cima. A verdade é que tu nem percebe mais os detalhes do caminho, de tão esvaziado que seu olhar ficou.

Pareço cansada e estressada. Talvez eu esteja.

É assim mesmo. A Serra vira sua companheira e não tem tempo ruim ou bom. Como uma boa amiga, ela te deixa passar livre.

Ela apenas quer a sua companhia e desfrutar da liberdade enquanto a temos.

Lá, a mente descansa num cochilo e os sentidos se aguçam.

É ar fresco.
É suor na pele.
É vento na cara.
É sol no braço.
É sede por água. 
É raiva na garganta.
É vista cansada.
É vista bonita.
É mente aberta.
É corpo tenso.
É a mochila pesada.
É o cabelo solto.
É a rotina que fala.
É o caminho para Freguesia.

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