Já é noite lá fora.

Não consigo parar de pensar. Em você, nos seus cabelos vermelhos, sua pele rosada. No seu potencial destrutivo. Potencial destrutivo que eu te dei, ao me oferecer à ti. Oferecer-te minha boca, os meus pensamentos e os meus olhos, naquela virada de ano que tentávamos deixar tudo para trás. Esqueci dos protocolos, de como dizer oi. Só lembrei das conversas que tivemos sobre tudo que temos em comum. Mas eu esqueci, esqueci de deixar a minha mente no ano anterior, que continuou arcaica, cheia de confissões e problemas.

Não consigo parar de pensar. Pensar nas confissões que guardo dentro de mim. Na pulsão que tive quando você me abraçou e afaguei seus cachos negros. Na minha mão correndo suas costas e a dúvida que pairava na minha mente. Nos carinhos que trocamos, para depois descobrir que você estava fora de si. Que para você restou apenas a memória de uma garrafa, e para mim uma dúvida enorme de quem eu sou.

Não consigo parar de pensar naquela noite, que você me contou sobre sua vida em uma noite de vila vazia. Que me disse como os médicos o chamavam, e também como um deles não concordou. Que esse médico, vindo do Canadá, mas que mais parecia vir de dentro de todos nós, falou que você era amor. E que no auge do seu amor, projetou uma imagem inconsciente de você em outra pessoa. Eu era você, éramos irmãos. Perdidos na insanidade da vida e lúcidos da insanidade de nossas cabeças. Mas a nossa convivência caiu, e já não sei se seremos os mesmos da próxima vez que nos encontrarmos.

Não consigo parar de pensar. De pensar nas incríveis noites em que todos nós brincamos, que nos divertimos, que bebemos e fumamos. Que você me disse para parar de me diminuir, porque eu não era assim. E eu a princípio me ofendi, mas percebi a realidade e o amor que vinham dessa bronca. Não consigo parar de pensar em quando você me disse que me ajudaria a conquistar a ruiva da pele rosada. E nem como eu acreditei que eu realmente conseguiria.

Eu pensei. Pensei tanto que sofri. Sofri com as expectativas, com toda a imaginação. Eu não consigo controlar essa máquina que parece não dar trégua nem por um segundo. Que martelava a minha mente enquanto eu tentava me aproximar, e que me xingou de todos os nomes possíveis quando me levantei para lhe falar o quanto eu queria a sua boca na minha. Você disse não, e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que estava. E estava, realmente estava. Talvez você não entenda, mas foram as minhas primeiras palavras, minhas primeiras ações. Eu sabia que eu cairia, embora algo dentro de mim me desse a esperança de que eu bateria o recorde dos 100 metros livres.

Eu agi e me feri. E sorri, pois eu sei que eu sararei. Talvez não de todas as cicatrizes, mas de algumas. E talvez eu melhore tanto que seja capaz voltar a andar, dar outros primeiros passos que possam gerar mais um ou dois. Cairei de novo, criarei novas cicatrizes. E eu espero um dia entender porque tem algo que me faz levantar. Porque no exato momento eu não sei, eu não quero sair daqui. Levantar parece dolorido, e cair de novo me assusta. Me assusta o pensamento de que uma vez eu me machuque tanto que eu não vá conseguir levantar, então para evitar que eu caia, eu não me levanto. E isso dói, mas para ela faz todo o sentido. E eu posso escutá-la, já que é difícil calar a sua própria mente, mas você não vai me deixar acreditar. Porque você está lá para mim, e eu estarei lá para você. Hoje, amanhã, enquanto ela fizer sentido e até depois, quando eu souber controlá-la. Eu vou aprender a controlá-la.