Para as queridas

Um dia, queridas, não vamos mais precisar temer

Porque o medo, em si, já não terá mais sentido

Não precisaremos nos defender

(daqueles que dizem nos proteger)

Com nossas calças compridas e namorados inexistentes.

Um dia, queridas, todos conseguirão ver

A realidade vivida pelos olhos alheios

E as lágrimas de outrem serão um espelho

Que nos refletirá uma verdade que não é nossa.

E, mesmo assim, se nela houver dor,

Que seja compartilhada

Para assim, mais fácil suportada.

Um dia, queridas, as ruas serão protegidas

Sem medo de noite, nem de dia

Nem de calça, nem sainha

Nem de afro, nem chapinha

Nem sem sutiã, nem sem calcinha

Nem com nosso amor, seja quem for.

Porque nesse dia, queridas,

Todas as mãos estarão dadas

E não haverá quem atire a primeira pedra.

Estaremos então

Num utópico mundo heterogêneo

De direitos iguais.

Um dia, queridas

Um dia.