Brilho

Se fechar os olhos, vejo: a minha mãe, o meu irmão e eu no meio de um mercado popular na Cidade do México.
Eu nunca fui ao México, mas, se fechar os olhos, vejo: muita gente, talvez toda a gente do mundo, num mercado na Cidade do México.
O meu pai desapareceu em Caracas. Na altura, eu tinha seis anos.
Aqui, há muitos homens, todos os homens.
A minha mãe diz que o meu pai era um homem grande, nem moral nem espiritual, mas um homem de quarenta anos que se perdeu em Caracas.
Se fechar os olhos, vejo: o meu irmão com a mão direita no bolso do casaco; depois, vejo: o meu irmão a tirar do bolso um estojo, onde guarda a navalha e outros objectos estranhos, aqui no México.
O ruído e as cores põem em causa a eficácia da linguagem.
Se fechar os olhos, vejo: um vendedor de plantas carnívoras, um homem muito parecido com o meu pai.
A navalha era do meu pai.
Quantos países já visitaste?
O meu irmão não gosta de ir ao cinema. O meu irmão não consegue ir ao cinema.
Aqui, agora, se fechar os olhos, vejo: a minha mãe desiludida.
Não me lembro do rosto do meu pai, se fechar os olhos.
Vejo: o meu irmão nervoso.
O movimento do planeta. Homens, pássaros. A navalha na mão do meu irmão.
Se fechar os olhos, vejo: nós aqui no meio de um mercado na Cidade do México.
Algum dia hei-de explicar a alguém o que me produzem as imagens.
O meu pai perdido em Caracas.
