Recordação

Pouco tempo depois de acordares no meio da noite, enquanto estiveres a notar o avanço da humidade, da morte, porque é isso que se faz quando se acorda no meio da noite, generalizar, esquecer, em todo o caso jogar com a ideia de que o mais minucioso pode ser aquilo que na verdade está mais próximo do imediato, do presente, do que vês no teu quarto quando acordas no meio da noite e te apercebes de que talvez não seja tão disparatada aquela frase fundamental da filosofia moderna “dormir é estar distraído do mundo”, enquanto penses nisto, ou, melhor, enquanto acordes e apareçam de repente luzes na tua cabeça, flash de máquina fotográfica atrasada, virá à tua memória um envelope que deixaste na tua antiga casa com uma fotografia da tua mãe com dezoito anos e que guardaste porque nesse momento sentiste a necessidade de imortalizar como era a tua mãe quando ainda não era a tua mãe senão uma miúda de dezoito anos feliz com um vestido numa qualquer avenida impossível e aqueles sapatinhos de verão que ela própria pintava e depois vendia aos colegas da faculdade para ganhar dinheiro e mais tarde poder ter a oportunidade de te contar essa mesma história sob a luz de uma cozinha impensável demasiado distante do lugar que ela imaginava quando era uma miúda de dezoito anos e acordava no meio da noite com a sensação de ser muito mais forte do que qualquer recordação.
