Julgamento — capítulo 1

Caio Arthur
Nov 2 · 6 min read
Photo by Matthew Henry on Unsplash

A cidade se erguia vertical cortando um horizonte quase completamente escondido por detrás de enormes prédios que de longe mais pareciam estacas perfurando as nuvens. Por entre essas construções, ficavam ruas que fediam a mijo e fritura e um mar de pessoas ocupadas demais com celulares, sem filtro algum pra manter a cabeça erguida. Eu era o que sobrava e ao mesmo tempo completava aquele cenário. Um ninguém sem ter vindo de lugar algum e sem estar rumando para onde fosse. Não possuía quase nada e, para todos os efeitos, comparado aos outros, eu era um mendigo, um indigente. Para mim, era prazeroso sentar ali à vista de todos e, tão invisível quanto era possível, assistir aquela hipnótica procissão de pessoas sobrecarregadas demais com algo que elas mesmas haviam inventado. Dava-me a sensação de estar assistindo a um filme de ficção científica culminando numa hipnose global e me distraía um pouco imaginar que a extrema pobreza me possibilitara ser o único desperto entre as milhares de pessoas que iam e viam por ali todos os dias.

As noites, no entanto, eram bem difíceis. O frio e a solidão cobravam seu preço. Um preço caro que muitas vezes me levava a um choro quase infantil. Era doloroso, mas toda manhã acordava me sentindo ridículo pelas lamúrias da noite anterior. Eu era mais forte que a falta de um propósito para me aquecer e repetia isso diversas vezes durante minhas crises até que as palavras parecessem menos vazias e mais verdadeiras.

Foi numa noite dessas, especialmente fria, em que, privado do sono, vaguei pelas ruas até uma parte da cidade que nunca havia visitado. Era tão cheia de prédios quanto, porém mais vazia, quase assombrada naquela hora da madrugada.

Caminhei a passos mancos até um beco que parecia engolido pela escuridão e pelos vários prédios ao seu redor na crença de que lá ao menos poderia me proteger um pouco do frio que me eriçava a nuca naquela madrugada. Parecia-me um lugar tão bom quanto qualquer outro para dormir.

Para minha surpresa encontrei, naquele beco, a fachada mal-cuidada de um bar. A porta simples, à três níveis de degrau abaixo da rua, parecia um fosso na parede descascada do prédio que ali se erguia. Uma placa sobre ela dizia “S u Bar”, com a letra ‘e’ visivelmente faltando. Prontamente, imaginei que se entrasse ali, por mais que o bar não parecesse ser bem frequentado dada a situação daquela fachada, seria expulso, mas, apesar disso, uma incomum curiosidade fazia minha mão coçar em direção a porta. Quem em sã consciência abriria um bar naquelas condições? Naquele lugar? Naquele horário?

Foda-se, se entrasse o pior que poderia acontecer seria voltar pra rua, lugar ao qual já pertencia.

Pus a mão na porta de madeira e dei um leve empurrão. Num primeiro instante a resistência que senti me fez acreditar que estava trancada, mas logo a porta estava deslizando suavemente até se escancarar e me pôr de frente para um bar praticamente vazio. As poucas pessoas que lá estavam sequer fizeram menção alguma de me encarar quando surgi, o que justamente alimentou a coragem para que eu desse um passo em frente. E depois outro. E depois outro.

O estabelecimento era extremamente simples, fazendo jus à sua terrível localização e à horrorosa fachada. A fraca iluminação dava um ar agradável de privacidade, as mesas e cadeiras dispostas bem longe umas das outras agregavam ainda mais essa ideia. O balcão alto de madeira exibia centenas de marcas de todos os diâmetros dos diversos copos que já haviam repousado ali. Na parte de trás desse balcão ficava uma estante que em outro tempo podia muito bem ter exibido os mais variados licores, uísques e vinhos, mas que agora exibia uma ou outra garrafa de uísque barato e um sem número de recipientes vazios. O lugar parecia à beira da falência, para ser honesto.
Um casal, o homem, idoso, negro e desconfortavelmente corcunda, com uma barba grisalha e bem rala que mal cobria as bochechas enrugadas, e a mulher, essa bem mais jovem, nada bela de rosto mas com um corpo que ela sabia que chamava a atenção, trajando um ornamentado vestido negro que deixava o decote dos seios deliciosamente a mostra, conversavam gesticulando animosamente numa das pontas do balcão, a ponta mais distante da porta a qual eu havia acabado de entrar. E por mais que fosse impossível não reparar naquela estranha combinação, era mais impossível ainda escutar ou discernir o que quer que eles estivessem conversando. Então apenas retribui o favor de ignorá-los como me ignoravam.

Passando o olho pelo resto do bar, minha experiência com estabelecimentos privados me obrigou a achar a cadeira mais próxima da saída para caso fosse enxotado: um banco alto encostado no balcão na ponta extrema à do casal. Sentei e o único garçom do recinto, que logo descobriria ser também o dono do bar, veio ao meu atendimento. Trajava uma camisa velha que poderia muito bem ter sido branca há muitos anos atrás e que marcava a saliência do seu abdómen. Tinha dois tufos de cabelo, um em cada lado da cabeça e mesmo esses eram quase tão ralos quanto a barba do velho que conversava com a moça. Era o tipo de pessoa que era francamente perceptível que envelhecera mal, aparentando ter mais idade do que provavelmente tinha.
Esperei por uma deixa para que eu pudesse pedir algo, mas o silêncio seguiu. Ele simplesmente pôs um copo mal-enxuto no balcão e serviu com alguma cerveja escura que eu não fazia ideia a qual marca pertencia. Deu um leve balançar de cabeça e soltou um “esse é por conta da casa” com uma voz que parecia rasgar as cordas vocais de tão rouca. Deixou-me ali encarando o copo cheio de cerveja, foi com a garrafa em mãos rumo a uma mesa ocupada por um homem desarrumado e já bastante bêbado e serviu-o de mais uma dose da mesma cerveja.

Esse cliente bêbado, o casal estranho, o dono do bar e eu éramos os únicos naquele ambiente que parecia transcender a dimensão da realidade de tão singular que era a possibilidade dele existir ali.

Não havia música ambiente ou muito o que se olhar de onde eu estava, muito menos qualquer outra distração como uma mesa de sinuca ou um alvo de dardos apregoado na parede com os quais pudesse ocupar minha mente, então voltei discretamente minha atenção para a discussão do casal enquanto tragava minha cerveja.

Atento, percebi, ao contrário do que havia concluído antes, que a excitação da conversa vinha toda da mulher. O velho não havia dito uma palavra desde que comecei à observá-los e parecia quase imóvel, apenas balançando a cabeça em momentos estrategicamente espaçados dando a impressão de que apenas fingia concordar com o que a mulher falava, parecendo se importar pouco ou nada com a história dela.

E foi assim que seguiu o resto da noite. Um único bêbado balbuciando numa mesa solitário, a mulher, que deduzi estar dando um relato bem detalhado de toda sua vida, já que não calava a boca, e o velho, que de tempo em tempo balançava a cabeça e tomava um gole quase irrelevante do uísque do qual se servia.

Toda essa cena se desenrolou sem muitas oscilações até que a bebida e o conforto de um teto começaram a anuviar meu cérebro e lá mesmo no balcão caí no sono sem qualquer advertência.


Capítulo 2 lindão aqui:

Fala pessoal, faz um tempão que não publico um texto aqui! Voltei agora com um conto em 4 ou 5 capítulos (ainda não tenho certeza). Nunca publiquei dessa forma aqui no medium então dá uma força comentando e dando uns aplausos marotos pra dar uma incentivada na publicação dos próximos capítulos!
Espero que gostem.

Bjão

Caio Arthur

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Toda e qualquer semelhança com a realidade nesse perfil não é mera coincidência | csalestelles@gmail.com

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