Estou bem, obrigada.

(ou sobre as felicidades que escolhemos fabricar)

Sei que estou sumida, que deveria aparecer mais. É que agora não dá. Estou ocupada colocando as coisas no lugar. Esvaziando as prateleiras. Encontrando um tempo já gasto, empoeirado no fundo do armário.

Estou ocupada recuperando a minha vida. Retomando significado.

Não sei se você já passou por isso, mas um belo dia me peguei pensando “bom, estou aqui e tá tudo incrível. Não poderia estar mais feliz.”

Só que eu não estava feliz. Estava bêbada. Cada copo de catuaba era pá abrindo cova rasa, na tentativa de enterrar demônios maiores que esta sala.

A verdade é que gastei anos fabricando felicidades para compensar a falta de paz de espírito. Sou viciada nisso e fui me aprimorando com o tempo. Perceba: álcool, sexo, trabalho, viagens, filmes, amigos… Tudo pode ser usado como matéria prima na confecção do conforto. Ajuda a manter os demônios adormecidos.

E você não imagina quanto tempo eu investi nessa tática. Tem tanta engenharia envolvida na arte de ignorar os problemas que talvez fosse mais fácil encarar a verdade.

É impossível fugir pra sempre. As desculpas acabam.

O problema é que resolver dá preguiça. E encarar a verdade dá medo. Expõe fragilidades difíceis.

Sei que muitas pessoas não tem a sorte de perceber que se enfiaram nesse buraco. Nem sei explicar como eu parei nele. Quando você menos percebe já criou uma cartilha do que é adequado sentir em cada momento e como sair pela tangente de situações desagradáveis — e entenda por desagradável confrontar seus próprios demônios.

Com o passar dos anos virei uma máquina desprovida de sentimentos reais, apenas aqueles moldados de forma a passar a falsa ideia de que está tudo sob controle. Eu (ir)racionalmente criei mecanismos de defesa para não encarar a realidade: a insegurança, o medo de não ser amada, a necessidade de me virar sozinha e tantos outros assuntos mal resolvidos.

Mas as prateleiras não se arrumam sozinhas. Do livro fora do lugar à montanha de sapatos, uma hora tudo começa a cair e você tropeça.

Finalmente chegou a hora de me organizar.

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