De volta a Guermowan


Conto (de Natal) em 8 capítulos ou 74 versículos



Advertência: Este De volta a Guermowan (conto “de Natal” em 8 capítulos ou 74 versículos, de Nikolai Krapoktin, comentado por C.S. Soares) é uma das narrativas curtas que complementam o romance O folclorista, de C.S. Soares, publicado primeiro em ofolclorista.com e replicado em outras plataformas editoriais digitais. — O editor


On fleeting things to set their price,
And mark the bounds of virtue and of vice.
The Satires of Persius; Satire V, 107–108.


0. Paremiologia

Quem são e de onde vêm os reis magos? Pergunta a que nunca se deu reposta convincente. Se vieram do oriente, nunca se chegou a precisar os países de origem. Arábia, Babilônia, Caldeia, Pérsia, Etiópia? Será que foram reis realmente? Já a palavra “mago”, sabemos, vem de “mag” ou “magush”, que quer dizer “intermediário da divindade”. A história a seguir, também trata de intermediários. Vem da tradição oral, bebida da boca do povo. Quem a me contou, embora não soubesse ler, também a ouviu de alguém, que por sua vez a escutou de outro, e este, nessa sucessão ininterrupta e quase infinita, de outros mais. Mil e uma histórias circulam sem sabermos quem as criou. Funciona mais ou menos assim: quem conta uma história, aumenta e subtrai (de um destino) uma glória. Agora, é a minha vez de contá-la. Não serei o último.


1. Bithisarea

1. O folclorista diz: Tenha muito cuidado com seus desejos, porque eles lhe poderão ser atendidos.

2. Foi assim que aconteceu com um homem chamado Bithisarea; outro chamado Melchior; e ainda um terceiro, de nome Gathaspa.

3. Conta-se que há muitos anos, tantos quantos nossa memória coletiva sequer será capaz de lembrar,

4. em uma noite conhecida como a “Noite do menino Jesus”, quando os cristãos se entregam com fervor à sua devoção,

5. os espíritos que pairam em torno das ruínas se reuniram ao som do que muito se assemelha ao “Magnum mysterium” e ao “La Dérobée de Guingamp”,

6. se entregando a toda sorte de excessos na grande charneca.

7. Nessa data e hora, escolhidas pelos mistérios caprichosos da terra e do destino,

8. três homens de Louargat planejaram furtar o tesouro oculto há séculos no solar de Guermowan.

9. Desde tempos remotos, existem nos castelos e nas fortalezas da Bretanha, espíritos familiares.

10. Quando todos da linhagem senhorial partiram e Guermowan se fechou em sua solidão,

11. os bons anões (sobrancelhas e cavanhaques muito ruivos, semblantes rústicos, enverrugados, cachimbos fumegantes, gorros e peles curtidos e esverdeados)

12. arrumam sobre a lareira, os objetos preciosos que tiveram o cuidado de reunir no dia em que ficou vazia a velha e agourenta mansão.

13. As riquezas guardadas em Guermowan atingiram (mas a que preço?) valor inestimável.


2. Inestimável

14. Em um dia de Natal, como o de hoje, o alfaiate de Laluzon e mais dois moleiros de Penn-ar-Stank

15. (com pouca disposição para o trabalho e muita para a dissimulação),

16. conversavam baixinho sobre o tesouro em uma estalagem de Louargat, perto da igreja de Notre-Dame-des-Neiges.

17. Porque noites antes, Bithisarea , o alfaiate, ao voltar de seu trabalho, ouvira a ronda dos espíritos na planície de Guermowan,

18. e os três camponeses decidiam se o momento não seria propício para pregar uma peça nos anões e ficarem ricos às custas deles.

19. Seria muito fácil (concluíram amparados por uma lógica alcoólica),

20. mas precisariam ter paciência e conhecer algumas noções de feitiçaria, o que Bithisarea poderia encontrar nos livros que tratam de magia.


3. Magia

21. Na feira de Guingamp, os moleiros (Melchior e Gathaspa) compraram os alfarrábios nos quais se descobririam os segredos confiados à terra:

22. o De occulta philosophia libri tres de Agrippa, O grande e o pequeno Alberto, além do Dragão Vermelho, o “grande grimório”, o “grimoire” mais maligno que existe.

23. Bithisarea, desde aquele dia, passou todas as noites, antes da “grande noite”, a queimar as pestanas com aquelas páginas.

24. Chegou a decorar passagens inteiras, e no dia de S. João, ele conheceria o obsecro.


4. Obsecro

25. Seis meses depois, os conjurados foram, em jejum, desde os primeiros alvores do dia,

26. para um campo triangular, que deveria ser cercado de camélias pelos três lados.

27. Um dos moleiros, Melchior, se armou de faca cuja lâmina nunca serviu;

28. o outro, Gathaspa, levou uma rama de aveleira cortada de um só golpe (agarrada solidamente pelas duas extremidades).

29. Deram a volta no terreno.

30. Bithisarea, o alfaiate, seguiu recitando a fórmula do sortilégio.

31. Pisaram o lugar onde estava enterrado o tesouro, porque o ramo de aveleira foi agitado por violentas convulsões.

32. — É aqui, murmurou Bithisarea, marquemos o ponto e voltemos à meia-noite.


5. Meia-noite

33. Quando soaram as doze badaladas de Notre-Dame-des-Neiges, os fiéis se espalhavam por todos os caminhos,

34. as velas de mirra e o incenso queimavam para afastar (inutilmente) os maus espíritos,

35. orações eram oferecidas (também inutilmente) aos protetores universais.

36. Nunca o carrilhão da paróquia havia anunciado um Natal mais delicioso como naquela noite;

37. sobretudo o pequeno sino tinha na sua voz de arcanjo, plangências tão encantadoras

38. como nem as bruxas imorais de Guermowan, as mais sinistras, as que enfeitiçaram Hans Baldung Grien, jamais conseguiriam suportar

39. (ainda que ao escutarem seus sons, os tenham deplorado e amaldiçoado).


6. Amaldiçoado

40. Bithisarea e os moleiros, sem perder tempo, metem mãos à obra.

41. Cada um executa a sua tarefa.

42. Melchior cava,

43. Gathaspa amontoa a terra ao lado do fosso,

44. enquanto o alfaiate, numa tenda quadrada que um círio ilumina, lê nos livros de magias as orações afim de afastar os espíritos noturnos,

45. porque as palavras do feiticeiro não podem perturbar o silêncio desta grande noite, já que o menor rumor poderia alertar os anões.

46. Os moleiros seguem trabalhando no mais absoluto silêncio.

47. O encarregado de abrir o fosso já conseguiu abrir um buraco que mede a altura de um homem.

48. Aos golpes da picareta e da pá, ele acredita ter ouvido um som metálico.

49. O tesouro não está longe!


7. Longe

50. A despeito das trevas da noite enegrecida como a abóbada dos infernos,

51. o moleiro que tomou o encargo de limpar a borda do fosso é o primeiro a distinguir uma estrela que nada de comum tinha com as outras que aparecem no firmamento,

52. estrela caudada, deslizando pelo céu até parar sobre o local onde estavam.

53. Após alguns segundos de espanto e incredulidade, em que até o vento parecia ter parado de soprar,

54. a grande estrela de brilho cegante

55. (não se sabe que tipo de medo causaria tal alucinação)

56. assumiria a forma de um reluzente animal chifrudo, como um bode, que avançava ameaçador.

57. O primeiro pensamento dos três homens foi se porem em guarda.

58. O animal começa a crescer aos seus olhos, cresce a tal ponto que parece um monstro.

59. “É o diabo!” grita um moleiro, e “dá às de vila-diogo”.

60. É um tolo desprovido de fé,

61. pois se tivesse continuado o trabalho depois de se benzer, ou de ter evocado o nome de Deus (Meu Deus!), com o fervor de um cristão, tal demônio teria se curvado, inteiramente vencido.

62. É um tolo desprovido de fé, mas é um tolo vivo.


8. Vivo

63. O animal demoníaco meteu os chifres na tenda, que foi virada e incendiada com os livros de magia.

64. Bithisarea e Melquior, o moleiro que cavou o fosso, foram arrastados pelos cabelos até as margens da estrada

65. e no dia seguinte foram encontrados desvairados, como se tivessem enlouquecido.

66. Em seu pesadelo noturno, ouviram os anões tilintarem moedas de ouro e levá-las em tonéis para outro esconderijo.

67. A loucura os conduziria, inapelavelmente, à morte em poucos dias.

68. O moleiro que sobreviveu, Gathaspa, o tolo, abandonou para sempre aquelas terras

69. e, pelo que a tradição popular diz, se fez anacoreta.

70. Ainda hoje, o tesouro de Guermowan continua sob a guarda de um espírito familiar,

71. que aguarda fervorosamente a volta da grande estrela, do grande mistério,

72. para que possa cumprir seu destino, e passar o bastão de sua iniquidade,

73. porque sabe que apenas assim, por vaidade, orgulho, arrogância e ganância, sejam suas ou alheias, certas maldições serão destruídas.

74. O nome desse espírito familiar, o folclorista diz, é Bithisarea.


Fim