Viciados em Distração

Vivemos em estado de “atenção parcial contínua”. Ansiosos, deprimidos, amedrontados e distraídos. Porque a distração é um tipo de droga, e nunca estamos satisfeitos. Sejam bem-vindos à era da “Economia da Distração”.

Concentre-se em uma única tarefa apenas: LER ESTE ARTIGO (5 minutos é o tempo estimado). Durante esse período, você será “monotarefa”.

MONOTAREFA = FAZER UMA COISA DE CADA VEZ.

O que, convenhamos, não é ideia nova.

“Monotarefa” é apenas um termo novo para algo antigo, que conhecemos muito bem, desde os bancos escolares…

“PRESTAR ATENÇÃO!”

ATENÇÃO (Guarde Esta Palavra — #GEP) é um ativo valioso, e uma leitura atenta, concentrada, eis aí um dos GRANDES DESAFIOS (o maior, talvez) de nossa geração.

Leia a sentença a seguir e reflita…

A verdadeira “guerrilha digital” ambiciona a distração, a interrupção do foco e da concentração dos consumidores, mesmo que por alguns segundos.

Vejam que curioso o gráfico a seguir, desenhado a partir das ocorrências da palavra “distraction” em livros publicados entre 1800 e 2016 inseridos na base do Google Books.

Gráfico Ngram de ocorrências da palavra “Distraction” em publicações entre 1800 e 2016

Se a quantidade de ocorrências de uma palavra em publicações de uma determinada época puder ser inferida como o nível de preocupação a respeito do tema naquele momento histórico, poderemos observar que o tema da “distração” ou da “desatenção” preocupavam de forma muito parecida àqueles que viveram em 1800 e os que vivem em 2016.

Mas, certamente, por motivos diferentes…

E o que isso quer dizer, pelo menos em 2016?

Resposta em um tweet:

Empresas de tecnologia, como Facebook, Apple, Google e Twitter, brigam pela monetização dos nossosinteresses efêmeros”.

Notem que em uma frase, concisa e realista, temos o panorama sociológico, antropológico e tecnológico da sociedade contemporânea.

Mas, prossigamos…

Este é Michael Goldhaber.

Michael Goldhaber

Michael é um estrategista de negócios que definiu, há duas décadas, um conceito importante chamado ECONOMIA DA ATENÇÃO, que é mais ou menos…

Um sistema que gira em torno do PAGAMENTO, do RECEBIMENTO e da BUSCA pelo que é mais limitado e não substituível do qualquer outra coisa, a saber, a ATENÇÃO de outros seres humanos.

ATENÇÃO! (#GEP)

Pode ser exagero, mas é notório que os nossos padrões típicos de concentração mudaram dramaticamente nos últimos 15 anos. Vivemos em estado de “Atenção Parcial Contínua”. Porque nos tornamos cada vez mais “MULTITAREFA”. Não é assim?

Portanto, parece-me mais adequado, talvez, dizer que vivemos na era da “ECONOMIA DA DISTRAÇÃO”.

Porque no fundo SOMOS VICIADOS EM DISTRAÇÃO.

[ E VOCÊ, COMO LIDA COM A SUA DISTRAÇÃO? Conte-me nos comentários abaixo. ]

Prossigamos… Com um pouco mais de história.

Este é Herbert Simon.

Herbert Simon

Em 1971, Herbet, um cientista político americano, prêmio Nobel de Economia (1978), observou algo que hoje nos parece óbvio, mas que é fundamentalmente uma constatação poderosa e angustiante:

a informação consome a atenção do seu destinatário”.

Não é você que consome a informação, caro(a) leitor(a). É ela que te consome.

Entendeu?

Grandes quantidades de informação criam a necessidade de alocação eficiente da (pouca) atenção disponível, o que, obviamente, dificulta nossa tarefa de

TRANSFORMAR INFORMAÇÃO EM CONHECIMENTO.

Isso, porque nossos recursos neurais são finitos, e vão se esgotando, pouco a pouco, à medida que trocamos nossa atenção entre tarefas, o que pode acontecer — para aqueles que como nós trabalhamos on-line –, mais de 400 vezes por dia, diz um estudo da Universidade da Califórnia.

… EIS O MOTIVO PELO QUAL VOCÊ SE SENTE TÃO CANSADO AO FINAL DO DIA.

Esgotamento mental…

Brain dead…

Muerte cerebral…

Muito cansado.

Portanto, o melhor a fazer é

FAZER UMA SÓ COISA DE CADA VEZ.

Porque…

Quanto mais você se permitir ser distraído de uma atividade, mas se sentirá propenso a se distrair…

e se esgotar.

Além disso, a MONOTAREFA pode tornar seu trabalho mais agradável, porque é a nossa ATENÇÃO que indica ao nosso cérebro se o que estamos fazendo é interessante, se vale a pena, se é divertido…

Na MULTITAREFA, você pode obter menos.

Pensemos também sobre um outro aspecto bastante debatido nos últimos anos.

O que a internet está fazendo com os nossos cérebros?

Esta é a pergunta que Nicolas Carr, um tecnologista americano, se propôs a responder em seu livro de 2010 The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains…

Editora Agir, 2011.

Na opinião do autor,

a internet é projetada para ser um sistema de interrupção, uma máquina orientada a dividir a atenção.

Isso não lhe parece familiar?

DIVIDIR SUA ATENÇÃO = DISTRAÇÃO = TRAÇÃO PARA VÁRIOS LADOS (DO LATIM DIS + TRÁHERE).

Mas, espere um pouco, não tomemos conclusões precipitadas, porque a distração é moeda de duas faces.

Verso e reverso.

Portanto, há também os defensores dos seus BENEFÍCIOS, aqueles que nos asseguram que a distração, servida na dose certa, MELHORA nossa CRIATIVIDADE, MEMÓRIA E CONCENTRAÇÃO.

A explicação é simples:

ao nos concentrarmos, nosso cérebro ignora os estímulos irrelevantes e estreita a atenção.

Seria essa afirmação apenas uma desculpa para o nosso incorrigível vício em distração?

Afinal, está contundentemente claro que

SOMOS VICIADOS EM DISTRAÇÃO.

O vício é força implacável que impele o viciado para uma substância ou atividade, que se torna tão compulsiva, a ponto de interferir em sua vida cotidiana.

A negação é a primeira defesa de qualquer viciado. A capacidade infinita de racionalizar sobre comportamentos compulsivos é obstáculo para qualquer recuperação.

A definição (simplificada, claro) sugere que quase todo internauta possa ser (ou vir a ser), em alguma medida, um viciado.

Viciado em INFORMAÇÃO e consequentemente (pela impossibilidade de abarcá-la, por mais tempo que se passe em frente às telas) viciado em DISTRAÇÃO.

O avassalador desejo do cérebro por novidade, estimulação e gratificação imediata é implacável, e acaba criando uma espécie de “LOOP DE COMPULSÃO”.

Nós, seres humanos, temos um reservatório muito limitado de vontade e disciplina.

Instaurado o hábito, é difícil mudá-lo.

Quão difundidas se tornaram no mundo digital as pequenas “apropriações” da nossa atenção.

O silêncio e a “mente vazia” são agora bens de luxo.

MENTE SÃ, EM CORPO SÃO. MENS SANA IN CORPORE SANO,

aconselhou o poeta retórico romano Décimo Junio Juvenal, que viveu por volta do ano 100 depois de Cristo.

Nós não temos o costume de defender (com “unhas e dentes”) nossa ATENÇÃO, sendo ela, como sabemos, um RECURSO FINITO.

Precisamos mudar o hábito…

Estabelecer critérios…

“Proteger”, cuidar, valorizar nossa ATENÇÃO.

Quando falamos de ATENÇÃO, estamos falando de uma das nossas faculdade mais importantes, porque é a partir dela que nós interagimos com o mundo.

E é essa ATENÇÃO, que hoje, especialmente nos “domínios digitais”, as empresas brigam para CAPTURAR.

Porque a sua, a minha, a nossa ATENÇÃO vale dinheiro, muito dinheiro,

na era da Economia da Atenção…

ou, se preferir…

na era da Economia da Distração.

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