Carlos Heitor Cony: Da Arte de Falar Mal da Morte

Cony morreu para provar que a morte — esse instante breve, de “cor aperolada” — existe.

“Se um dia me pegarem lá em cima, não choreis sobre mim, mas sobre vossos pecados. Não lamentem o incréu que se foi. Procurem bem: nas mãos do incréu, encontrarão um terço. É o da minha filha.” — Carlos Heitor Cony

Proveta de laboratório. Cony, o “longevo”, morreu para provar que a morte (esse instante breve, de cor aperolada) existe. Quando era jovem, nada entendia da morte, nem sequer da vida. Por isso, talvez, achasse que lugar bom pra se morrer, era o avião, lugar pasteurizado, esterilizado, limpo “como proveta de laboratório”. Não reprovava, no entanto, quem preferisse morrer na cama, com sondas fedorentas em volta, algodões ensaguentados, pus e velas. Veja só: diante da morte, toda bronca, escolha ou conjectura é inútil. A morte, definitivamente, não é boa negociadora.


Aprender a morte. Dizia o Cony, por intuição, que era preciso aprender a olhar aqueles que vão morrer. De uma forma geral e “acaciana”, todos precisamos aprender a morte. Era jovem quando sofreu uma intoxicação por causa daquele doce muito leve, feito de claras de ovos e açúcar, assadas em forno brando. A partir de então, passou a ser contra os “últimos suspiros”. No entanto, nada tinha contra as “últimas frases”. Aliás, até as apreciava, chegando ao ponto de colecioná-las. É verdade, porém, que detestasse as frases óbvias dos “mortos da vez” repetidas, inconsequentemente, por um e por todos, nas lanchonetes, boutiques, barbearias e veículos de comunicação.


Undiscovered country. Mas, houve uma vez, pelo menos uma, em que conjeturou sinistramente sobre as “últimas frases” que amigos e desafetos pudessem pronunciar no momento derradeiro, no encerramento das suas humanas atividades. Isso foi há mais de 50 anos, em alguma de suas crônicas publicadas no jornal “Correio da Manhã”, sob a título de A arte de falar mal de. Todos os lembrados por Cony naquele texto já chegaram, faz tempo, “à cláusula dos seus dias” e partiram, aos tropeços, enfastiados ou apressados, para aquele “undiscovered country” de Shakespeare e Machado de Assis.


Últimas frases. Sugeriu Cony:

  • Carlos Lacerda (1914–1997) morreria ou de terço na mão ou dizendo a palavra “caterva” (em transe, como só Carlos poderia dizer);
  • Ênio da Silveira (1925–1996), por sua vez, fiel ao escoteiro da infância, morreria fazendo continência e exclamando Sempre alerta!;
  • Jorge Amado (1912–2001) — que a ninguém engana — , se pegaria com o Senhor do Bonfim e algumas invocações caboclas;
  • Antonio Olinto (1919–2009), o grande cronista da “Porta da Livraria”, citaria Bergson: Já dizia Bergson que a morte… e “cataploft”;
  • O cineasta Orson Welles (1915–1985) morreria berrado (em inglês, claro): Sanz! Sanz! Onde estás que não respondes?;
  • Nelson Rodrigues (1912–1980), possivelmente, oraria na hora extrema;
  • Walmir Ayala (1933–1991), o poeta gaúcho, morreria suavemente, como Byron, recitando sua própria produção: Hoje comerei rosas;
  • E Guimarães Rosa (1908–1967), homem de invenção e gênio, grande frasista, segundo Cony, diria apenas Nonada ou, mineiramente, Êta mortinha besta!

Parou e prestou atenção. Eu que tenho lido (e escrito) bastante sobre o Guimarães Rosa nos últimos meses, percebo que seria mais provável que o escritor, diplomata e médico mineiro— como o cirurgião Joseph Green, do século XIX, também lembrado por Cony naquela antiga crônica hoje quase esquecida — tivesse posto a mão no pulso e simplesmente constatado: Parou. Não foi assim, não teve tempo. Mas, ele próprio parou, porque na hora da morte cantar, todos param. Carlos Heitor Cony também parou. É isso uma verdade inapelável. Cony, que não era de piedades, muito menos apreciava defuntos, apenas parou e prestou atenção ao canto da morte: a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.

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