Encanteria, 1
(1) Morrer, morte e estar morto são coisas bem diferentes. Morrer é um processo e estar morto é condição ou estado. A morte intervém entre ambos, está no fim do “morrer” e no início do “estar morto”. Enquanto morremos, ainda estamos vivos, muitas vezes conscientes de que morremos, e com dor, angústia e sofrimento. Morrer, poderia até não ser coisa má, ou mesmo, algo divertido, se não fosse seguida de morte.
(2) Na literatura, a morte é tratada com muitas delicadezas, o que de certa forma, você sabe, lhe afasta a essência. As pessoas evitam tanto quanto podem pensar (diretamente) nela. Inventam expressões como “viagem sem volta”, “sono eterno”, “descanso final”, “fim da caminhada”, “fim de todos”, “acontecimento tristemente belo”, “indesejada das gentes”, “transe derradeiro”.
(3) O que de fato acontece é que ninguém suporta enfrentar cruamente a morte, porque ela é assunto tão sinistro e misterioso, que, sinceramente, eu mesmo preferia um nome menos intimidador para falar desse fino, estranho e inacabado momento que é sempre o último destino da gente.
(4) O livro que você está prestes a ler, trata das mortes de alguns dos nossos maiores escritores. Tratar de suas mortes, ou seja, do ponto final de suas vidas, é antes e em essência (quero deixar isso bem claro), uma forma de celebrar as suas memórias, que cada uma à sua maneira formam uma série encadeada e crescente de restrições (memórias são restritivas) e que culminaram (novamente cada uma à sua maneira) na maior de todas, a restrição das restrições, aquela que oblitera a própria vida (o coração para de bater, a respiração se extingue, as pupilas dilatam, os olhos perdem o brilho, o fluxo sanguíneo é interrompido e os vermes iniciam o seu serviço).
(5) Mas não é bem assim ou, antes, não é apenas isso (acompanhe meu raciocínio): se envelhecemos, enfim, se morremos velhos, tomamos posse do passado, mas se não envelhecemos, ou seja, se morremos jovens, tomamos posse do futuro, por isso, o mundo é mágico.
(6) Lá no parágrafo final, quase sempre trágico, de toda narrativa humana, percebemos (como percebeu o escritor João Guimarães Rosa) que “as pessoas não morrem, as pessoas ficam encantadas”. Essa é uma verdade amplamente aceita, em especial, em relação aos escritores, porque eles (e elas) escrevem sempre contra a morte, ou a favor da imortalidade, tanto faz.
(7) Todos os leitores precisam acreditar que toda biblioteca é um gabinete mágico onde, à medida que os livros são abertos e lidos, os espíritos de seus escritores acordam novamente do seu sono profundo, “triste e belo”, e por encanto, passam a viver novamente.
(8) Há quem viva uma vida inteira e aí, de um momento para outro, assim tão de repente, morreu: é nesse momento que um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu com plenitude ou escassez, aborrecimento, resignação, esperança, impaciência ou falta de modéstia.
(9) Passou para “o outro lado da força”, fora e acima de suave ladainha e terríveis balbúrdias.
(10) Mas, quando falamos de um escritor, o que é um pormenor de sua ausência física? Faz-lhe realmente alguma diferença a morte? Afinal, eles não sobrevivem em suas obras?
(11) Se por um lado, “as pessoas morrem para provar que viveram” e “só o epitáfio é fórmula lapidar” (disse-o Guimarães Rosa), por outro, todos esses escritores, tenho-os comigo, afinal, não somos todos de uma só família? Não descendemos dos nossos mortos?
(12) Escrever é insistir em enxergar o que não se vê. Escrever é exercitar outros sentidos mais sensíveis que o da visão. Sentidos que não sabemos explicá-los. Escritores são sensitivos. Há os que insistem em enxergar (sentir, captar) o mundo de dentro para fora, outros, ao contrário, insistem em enxergá-lo de fora para dentro.
(13) José de Alencar, por exemplo, foi um romancista, um “sensitivo”, do primeiro grupo, seu interesse estava nos acontecimentos ou na cenografia. Machado de Assis, a seu modo, integrou o segundo grupo, já que seu interesse se concentrou no exame (mórbido até) das almas, na análise dos instintos e no estudo dos cacoetes e das deformações da alma. Guimarães Rosa, por sua vez, congregou as duas características, daí vem as proporções inquietantes de sua obra. Insistir em enxergar para além dos sentidos básicos é, podemos presumir, uma forma peculiar de crença. Logo, escrever é crer.
(14) Quero lembrar os versos (raros) desse escritor mineiro, que pressentiu a morte e “soube morrer a tempo” (por quatro anos adiou sua posse na Academia Brasileira de Letras, prevendo uma irônica sincronicidade fúnebre no seu acesso à “imortalidade”):
(15) Corpo triste, triste sono,
faz frio à beira da cova,
onde espero a lua nova
como o cão espera o dono
(16) O mundo é encantado, o mundo é encanteria. Para quem não conhece o significado da palavra, encanteria é um ritual que trata dos assuntos que transcendem, mas o faz de forma bastante peculiar: é preciso terminar algo que se começou antes, e é preciso fazê-lo com a maior pressa possível, de modo que se possa ter mais tempo o gozo de uma mente confortada, em paz consigo mesma.
(17) Trataremos de “encanteria” nesse livro, essa sensação mágica, na confluência da escrita com o próprio rio da vida, que insiste em anotar que livros, este inclusive, são ao mesmo tempo obras de acaso e destino. Livros que a profunda e persistente ignorância (otimista ou pessimista) de seus abnegados autores conseguiu vencer.
(18) Portanto, doravante, que o curioso e astuto leitor assevere-se, conclua e faça fé de que escrever um livro é acima de tudo saber e conseguir (a muito custo e não poucas vezes, picaresca e astutamente) vencê-lo.
