Lima Barreto, 1

Cláudio Soares
Feb 23, 2017 · 2 min read

Delineado um breve esboço biográfico, honesto e fidedigno (na medida do possível), extraído de confissões do próprio escritor, em artigos e livros, e dos depoimentos de seus amigos mais próximos e daqueles que, de uma forma ou outra, privaram de sua presença, podemos assegurar, com algum grau de confiabilidade, que Lima Barreto foi um mestiço declarado, cuja cabeça, de um dolicocefalismo exagerado, chamava a atenção. O rosto lhe era arredondado, bem-proporcionado, dilatado, cheio de furos e precocemente vincado. A cabeleira grisalha, as sobrancelhas longas e arqueadas, bem desenhadas no contorno do olhar marcante, olhos alongados, de um verde sujo com fundo amarelo e embaciados (grandes, cansados, tristes). O nariz núbio, esparramado, centralizando outros traços fisionômicos gentilmente duros e amargos. Os lábios lhe eram sobretudo finos e irônicos, ora sobressaindo um sorriso misterioso como o de um malaio, ora, a risada, uma risadinha seca, gorgolejante, triste e quase sem rumor. Lima Barreto preferiu andar a pé sempre que pôde e nunca usou óculos, mas gostou demasiadamente do seu chapéu-palheta (um tipo de chapéu de palha de estrutura rígida) quase sempre encardido. Repudiou o cinema, principalmente o americano, e implicou com as tecnologias (o telefone sempre lhe pareceu uma grande inutilidade). Levantava-se cedo, antes das 8 da manhã, ia para uma venda próxima a sua casa, ler os jornais e tomar as primeiras talagadas do dia. “Aguardentista”, bebericou desastrosamente por diversos botequins da cidade e fumou desbragadamente. Escreveu à mão notas, artigos, crônicas, romances, mágoas e rancores. Seu prato predileto era o tutu de feijão com um bom molho de tomate, cebola e vinagre, seguido de carne-seca e também gostava de sapoti. Sabia nadar muito bem, mas preferia contemplar o mar. Respondia religiosamente todas as cartas que recebia, guardando as minutas das respostas. Nunca deixou de agradecer livros enviados por escritores novos. Não gostava dos “botafoganos”, uma certa elite do bairro de Botafogo, com o qual sempre teve uma relação dúbia, de amor e ódio, mas pediu para ser enterrado no cemitério de São João Batista, e foi lá que seus restos mortais repousaram. Detestou o futebol porque os grandes clubes cariocas, no início do século passado, apresentavam um preconceito de cor latente em suas organizações, por isso, Lima chegou até a criar uma surpreendente “Liga brasileira contra o futebol”, em 1918. Mas há quem jure que Lima Barreto torcia pelo Vasco da Gama.

Cláudio Soares

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E-publisher, escritor, jornalista, tecnologista e palestrante.