Lima Barreto: Grande Escritor, Grande Escritor Negro, ou ainda, Grande Escritor Negro e Cachaceiro?

É para pensar (sem ares de “polêmica”, apenas uma reflexão mesmo): até que ponto, insistir na associação do Lima ao epíteto “escritor negro” ajuda ou atrapalha? Ou ainda melhor: até que ponto isso é realmente necessário? O foco não é a obra? Pelo menos deveria. Ora, Lima era negro e pronto. Todo mundo viu e vê. Se fosse branco, amarelo ou azul, faria diferença em termos de obra? Não quero entrar em questões antropológicas ou sociológicas, apenas literárias. Foi um grande autor e pronto. Foi cachaceiro e pronto. Reconhecemos em Lima um grande escritor (o que de fato era, e como também eram o Machado de Assis e o Paulo Barreto (João do Rio), que “se ajustaram” à sociedade da sua época) ou um grande escritor negro cachaceiro e maltrapilho? Eu disse por aí, em algum lugar, que o Lima — que sempre foi um grande escritor — não foi perseguido pela cor, mas porque sempre foi (ótimo para seus leitores!) um subversivo, um anarquista. Ainda teria problemas hoje, inclusive. A força de sua literatura vem daí, dessa subversão: “o mal do Brasil não é a cachaça, é a burrice”, disse ele. O grande escritor Lima Barreto não é, nunca foi um “pobre coitado”, talvez um desafortunado, pelos lamentáveis problemas particulares que teve, e muito provavelmente foi também um depressivo. Teve “bom padrinho”, foi afilhado do Visconde de Ouro Preto. Mas sucumbiu às agruras do seu destino. Enfim, a cor da pele como “metadado” de escritor, em pleno 2016, nos faz apenas lamentar — lembrando a frase do Lima — que a quantidade de cachaceiros no Brasil ainda seja pouca.