O Aparecimento de Grande Sertão: Veredas

Cronologia do aparecimento do romance — um dos maiores da nossa literatura — que completou 60 anos em 2016.

(Eu ainda não defini como inserir esse artigo na narrativa de Encantados! Mas, acho importante escrever alguns blocos sobre o livro mais importante de Guimarães Rosa, tão representativo de sua trajetória)

Quando lhe era pedido para explicar a linguagem autêntica e estranha de seus livros sobre o sertão, João Guimarães Rosa dizia:

“Quando escrevo, é como se fosse tomado pelos caboclos de Minas. Deixo, então, que eles baixem e me entrego”

O romance “Grande Sertão: Veredas” está completando 60 anos. Não foram poucos os acontecimentos relevantes que o ano de 1956 deixou na história da Literatura Brasileira.

Para o escritor, médico, embaixador e supersticioso mineiro João Guimarães Rosa (1908–1967), aquele foi um ano realmente especial, o seu ano mirabilis, com a publicação de dois grandes livros: Corpo de Baile e, poucos meses depois, de Grande Sertão: Veredas.

Em termos gerais, até se prove o contrário, o principal evento literário daquele ano foi mesmo o aparecimento desse fabuloso (e diabólico) Grande Sertão: Veredas. Mas, afinal de contas, o que vem a ser esse romance sui generis para o qual não se acha classificação fácil?

O diabo na rua, no meio do redemoinho?

O Grande Sertão, hoje um sexagenário, pede sempre uma releitura. Passado o inevitável choque produzido pela “nova língua” inventada por Guimarães Rosa, se consegue penetrar — não sem dificuldade e maravilhamento — um bloco maciço, coeso, de quase 600 páginas, sem divisões de espécie alguma, escrito em resposta a um interlocutor invisível, com idas e vindas resultantes de conversação sem programa ou plano.

A narrativa não obedece ordem cronológica. Tudo é enredo, sobrenaturalidade, “fio eletrificado” e meio demoníaco. Este, aliás, “o figura, o morcegão, o tunes, o cramulhão, o debo, o carocho, do pé-de-pato, o mal-encarado, aquele — o-que-não-existe”, enfim, o diabo mesmo, já lhe era personagem desde um conto “enxadrístico”, do ainda jovem Guimarães Rosa, intitulado Chronos kai Agnake, publicado na revista O Cruzeiro em 1930.

No Grande Sertão, ele volta e toma conta do romance desde sua epígrafe (O diabo na rua, no meio do redemoinho…) até o último parágrafo.

O livro inteiro é embebido, impregnado, dessa potência extraterrena, detentora do mal, com quem, admite-se, será possível pactuar para a realização de determinados eventos, como, por exemplo, na estranha e curiosa cena em que Riobaldo o invoca, antes de se tornar o chefe dos jagunços.

Nada repugnava mais Guimarães Rosa do que uma literatura que despojasse o homem de sua inevitável transcendência.

Em 16 de julho de 2016, o Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, um dos maiores clássicos da Literatura Brasileira, completou 60 anos.

Vejamos, a seguir, uma breve cronologia do aparecimento desse romance eterno e diabólico.

Cronologia de “Grande Sertão: Veredas”

4 de janeiro de 1956.

O jornalista José Condé (1917–1971) avisou na coluna Escritores e Livros do jornal carioca Correio da Manhã que mal o editor José Olympio (cuja casa editorial comemorava então 25 anos de fundação) imprimia a quarta edição de Sagarana e os 2 volumes do recém lançado Corpo de Baile, João Guimarães Rosa, o autor, acabava de entregar ao mesmo editor os originais do seu primeiro (e único) romance: Grande Sertão: Veredas.

3 de maio.

O mesmo Condé avisava em sua coluna que o livro já se encontrava em fase de impressão, com previsão de lançamento para “muito breve”.

16 de julho.

Segunda-feira. Finalmente chegava às livrarias, sob a responsabilidade editorial do lendário José Olympio, este monumento da literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas. Um portento de 594 páginas maciças que representaram “uma revolução completa na sintaxe”, como escreveram jornalistas especializados da época.

O romance que não tem capítulos nem cronologia, também não obedece padrão ou receita. Sendo assim tão revolucionário, se enquadra na feição mais tradicional do gênero, com um raro poder adicional de causar espanto, ainda hoje, 60 anos depois de seu lançamento.

O crítico literário Sergio Milliet (1898–1966) escreveu na época que o romance era o “grito de independência” da Literatura Brasileira. Para Milliet, o livro era também “o grande acontecimento literário e linguístico do século XX”.

Franklin de Oliveira, que estreava como crítico literário do Correio da Manhã chamou o livro de “romance puro, ou quase puro”, e ainda de uma “canção de gesta dos jagunços, organizado em estrutura musical, estrutura que se enquadra na categoria literária da prosa polifônica”.

17 de julho.

Neste dia, aparece na segunda página do Correio da Manhã o curioso anúncio do livro que alertava aos leitores a não compartilharem spoilers, ou seja, pedia que não passassem adiante detalhes do enredo.

Dizia o anúncio

“Deixe aos outros o prazer de descobrir o Grande Sertão: Veredas”.

Poucos sabem que Guimarães Rosa participava ativamente na criação dos textos publicitários de seus livros (inclusive o anúncio na imagem abaixo), das orelhas às contracapas, geralmente desenhadas por ele mesmo em várias cores e diversos tamanhos de letras.

E Depois?

O que veio depois, veio, e foi espanto, perplexidade e história. Redemoinho. Até o dia 19 de novembro de 1967, com a súbita morte de Guimarães Rosa, três dias depois de ter tomado posse na Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras.

Rosa previu sua morte e morreu enquanto escrevia. Doce, sereno, pouco depois de ter pedido uma xícara de café, quase sem açúcar, como ele gostava. Emortecido, encantado, o autor descansou a mão (“antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!”).

Mas, a história do livro, — sertão que se alteia e se abaixa, perigoso — continua. É tudo travessia.