Os mortos fora dos cemitérios do Rio de Janeiro

Há poucas semanas, escrevi sobre o Cemitério da Cinelândia. O artigo mereceu alguma atenção (obrigado!) recebendo — até o momento em que publico esse artigo — mais de 6.000 acessos. Hoje, continuo no tema, escrevendo sobre alguns dos mortos sepultados fora dos cemitérios cariocas.

Os mortos têm as suas próprias casas, várias, em nossa cidade do Rio de Janeiro: os cemitérios, as necrópoles, onde moram às centenas, aos milhares. Dentro de suas “cidades” estranhas, há palácios, casas modestas, choupanas. Até depois da morte, há “planos habitacionais” diferentes.

Recebem ali, de tempos em tempos, a visita dos familiares e amigos, principalmente no dia 2 de novembro, o feriado de finados. É nos cemitérios da cidade, que em romaria, vamos vistá-los. Lugares, que justificam a criação da palavra “cadáver”, construída a partir das 3 sílabas inicias das 3 palavras da expressão latina impregnada de fatalidade “caro data vermibus” ou “carne dada aos vermes”.

Os túmulos dos cemitérios cobrem-se, então, de flores, lágrimas e saudade.

Mas, e fora das necrópoles? Quantos túmulos existem que às vezes passam desapercebidos dos que passam bem perto deles? Há túmulos fora dos cemitérios da cidade do Rio de Janeiro e eles estão espalhados pela cidade.

Vejamos, por exemplo, o caso de Manuel Luis Osório — o general Osório, também conhecido como o Marquês do Herval— o gaúcho predestinado que morreu em 1879 e cujos despojos mortais permaneceram na cripta existente no monumento criado por Rodolfo Bernardelli, inaugurado em 1894, na Praça XV de Novembro, Centro do Rio de Janeiro, até 1993 (quando foram transferidos para Tramandaí-RS). Este também foi o primeiro monumento da República: um túmulo.

Por sua vez, o Frei Francisco do Monte Alverne, reconhecido orador e pregador oficial do Império do Brasil, considerado por Gonçalves de Magalhães como um dos precursores das ideias românticas no Brasil, que iluminava o púlpito histórico da Glória do Outeiro, morto em dezembro de 1858, foi enterrado no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca. No mesmo local estão sepultados o arquiteto Grandjean de Montigny e o Frei Fabiano de Cristo.

Lápide de Mestre Valentim na Igreja do Rosário, Centro, Rio de Janeiro

Mestre Valentim, desenhista e entalhador, executor do Passeio Público, mestiço de enorme talento, criador de vários monumentos da cidade, tem seus restos mortais guardados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na rua Uruguaiana, no Centro do Rio.

Basílica dos Capuchinhos, na Tijuca, Rio de Janeiro

Estácio de Sá, fundador da cidade, ferido na batalha de Uruçumirim, em 20 de janeiro de 1567, falecendo um mês depois. Seus restos mortais foram depositados e deslocados em vários pontos diferentes da cidade. Hoje, repousam na Basílica de São Sebastião dos Frades Capuchinhos, na rua Haddock Lobo, no bairro da Tijuca.

Por fim, entre outros muitos grandes e pequenos vultos da nossa história, que repousam fora dos cemitérios da cidade, temos os escravos. Eles tiveram seus cemitérios.

Praça Tiradentes, antigo Campo da Lampadosa

No antigo Campo de Santo Antônio, hoje Largo da Carioca; no Largo de Santa Rita, próximo à Igreja de Santa Rita, entre a rua Visconde de Inhaúma e a avenida Marechal Floriano; e também no campo da Lampadosa, atual praça Tiradentes. Todos esses cemitérios desapareceram. Mas muitos dos ossos dos seus mortos continuam lá, sob os pés de quem caminha por esses e por outros lugares na cidade do Rio de Janeiro.