Sobre o título

No dicionário, “Estranhamento” é o ato, processo ou efeito de estranhar. É também admiração, espanto, pasmo ou surpresa diante de algo que não se conhece ou não se espera, estranheza, ou ainda, achar algo censurável, fugir da convivência, esquivar-se e, no limite, não se reconhecer. Em russo, ostranenie (остранение) ou estranhamento foi um termo usado por Viktor Chklóvski, formalista russo, em sua obra “A arte como procedimento” (“Iskusstvo kak priem”), publicada em 1917. Chklóvski achava que a busca pelo insólito, pelo não familiar durante o processo de criação seria capaz de libertar o espectador da letargia mental, realizando assim a tão almejada comunicação estética. Nas páginas desse livro, também buscaremos o insólito. O jovem formalista russo, para muitos o enfant terrible do movimento, advogou que, no processo de criação, o artista deveria prezar por formas desconhecidas, por algo que se apresentasse como não-familiar ao receptor. Isso resultaria em construções com um certo grau de dificuldades, exigindo assim maior dispêndio de energia perceptiva por parte do fruidor. Segundo essa concepção, a obra literária eficaz seria aquela que, a partir de uma configuração formal particular (da sua logicidade interna), melhor retesse a percepção do fruidor (especificamente um leitor, no nosso caso) sobre si mesma. Essa seria, advogou o teórico, a maneira pelo qual a obra literária alcançaria a sua almejada comunicação estética.