Pedestre! Use sua faixa!

Pedestre, use o teletransporte. (Fonte: Arquivo pessoal)

Poucas coisas me incomodam mais, quando estou dirigindo, do que propagandas de automóvel no rádio. Especificamente o final da maioria das propagandas, com a “frase educativa” imposta pela Lei nº 12.006, de 29 de julho de 2009 (CTB) e regulamentado pela Resolução nº 351, de 14 de junho de 2010 e Portaria nº 99, de 10 de julho de 2014.

Tratam-se de frases com objetivo de disseminar mensagens educativas e diminuir a mortalidade no trânsito. “O que há de errado nisso?”, você pode estar se perguntando. “O objetivo é tão nobre!” Afinal, a violência no trânsito é uma das principais causas de morte, especialmente entre jovens.

O problema, e o que tanto me incomoda, é que a ampla maioria das propagandas usa uma única frase. Trata-se de uma frase imperativa, ou seja, uma ordem. O leitor que já ouviu, provavelmente, já sabe a qual delas me refiro.

O alvo da propaganda é, por óbvio, o atual e/ou potencial dono de um automóvel, já que as peças publicitárias são feitas e disponibilizadas para este público. Ao adquirir um carro (nenhum problema com isso!) este torna-se responsável por operar um equipamento de alta periculosidade, e portanto é importante educá-lo a fazê-lo adequadamente. Só que o alvo da mensagem educativa ao final é… a potencial vítima de um motorista que não seja responsável no manejo do veículo que opera!

Há tanta coisa errada nisso, que fica até difícil enumerar. Mas vamos lá: Comecemos com o fato de que pedestres normalmente são as vítimas, não causadores de acidente. Quando são de alguma forma causadores, há grande chance de não serem os únicos ou principais responsáveis (ex: estava fora da faixa, mas o motorista também estava acima da velocidade, o que prejudicou a capacidade do pedestre de atravessar a tempo). E quando causam, eles são, sem dúvida, os mais prejudicados! Porque focar na educação do pedestre?

Na campanha, das 6 frases disponíveis para usar, apenas 1 (uma!) é focada, ainda que indiretamente, em educar os motoristas: “Avance no respeito, não avance na faixa”. O objetivo é proteger os pedestres, mas o “avanço” na faixa não me parece ser a principal causa de mortalidade, e sim altas velocidades, embriaguez ao volante, etc. De qualquer forma, não lembro de ter ouvido esta frase amigável e simpática em qualquer propaganda.

Duas (2) são focadas em compartilhar responsabilidades: Uma, mais enigmática, diz que “Na cidade somos todos pedestres”. Tenho minhas dúvidas de que tipo de impacto e impressão ela causa nas pessoas. Ainda estou tentando digerir o que afinal ela quer mesmo dizer. A outra é “Todos juntos fazem um trânsito melhor”. Ambas não trazem nenhum conselho educativo prático e direto e são bem simpáticas, amigáveis. Talvez por isso aparecem com alguma frequência nas propagandas.

Já três (3) são focadas diretamente em responsabilidades de pedestres e direcionadas à educá-los. Uma é mais leve, “Pedestre, você também faz parte do trânsito”. Como a frase é direcionada ao pedestre, o foco é informar o pedestre que ele também tem direitos e deveres como participante do trânsito, e não lembrar os outros da existência do pedestre, como poderia se alegar. A segunda é “Pedestre, dê o sinal para sua vida”, que parece querer lembrar o pedestre de pedir “permissão” para atravessar a rua, ou deixar mais claro que vai faze-lo, interprete como preferir. Já a terceira é especialmente imperativa e claramente focada no pedestre: “Pedestre, use sua faixa”. Ou seja, restrinja-se aos locais que foram definidos para você.

Quem escolhe qual frase será usada? O autor da publicidade! Então adivinhe qual é a que mais aparece…

Pedestre, f*$%-se. (Fonte: Multa moral)

Não que não seja importante que pedestres sejam defensivos na interação com outros atores no trânsito, tentando se integrar a ele, ser visível e usar as estruturas feitas para protegê-lo. Claro que é! Mas num país onde pedestres estão morrendo em ritmo de guerra e são as maiores vítimas do trânsito, parece correto que praticamente todo o foco da educação no trânsito seja nas atitudes deles, que, por mais que alguem possa duvidar, são os mais interessados em manter a própria vida?

E isso quando o principal ouvinte da campanha é quem está com a “arma” na mão? É como se uma campanha contra corrupção passasse numa rádio interna das sedes dos poderes da república, após uma comunicação voltada aos governantes, com a mensagem: “Cidadão, não sonege impostos”. É importante? É! Tem a ver com corrupção? Sim! Mas você claramente não está acertando o alvo!

Me parece que não há como ter efeitos positivos nessa abordagem, muito pelo contrário: o efeito só pode ser de fazer o motorista, que é quem está ouvindo, sentir-se menos responsável pela vida alheia: “eles que respeitem as regras que se aplicam a eles se querem ser respeitados”. Acha que não? Ouço isso o tempo todo, como ciclista. E respeito todas as regras que se aplicam à ciclistas.

Do lado das responsabilidades do estado, vê-se faixas de pedestre ou passarelas apagadas por todo lado. Ou inexistentes. Ou mal posicionadas. Calçadas idem, inexistentes, destruídas, com 20cm de largura. Vias construídas pensando no fluxo e na velocidade, não na segurança de quem circula ao redor, mesmo que estejam em um núcleo urbano altamente movimentado. Do lado das responsabilidades dos motoristas, vê-se carros estacionados em calçadas e faixas, não se para na faixa sempre que possível, alta velocidade e a embriaguez que aumenta em muito as chances de ferimentos graves ou morte das vítimas atropeladas. Isso pra nem entrar nas questões envolvendo ciclistas (inclusive o mau comportamento de alguns ciclistas no trânsito). Todos estes itens, entre outros que o leitor pode enumerar facilmente, seriam ainda mais importantes como foco de educação.

Sim, aí tem uma faixa… Não está vendo?!? (Fonte: Arquivo pessoal)

Não vou nem entrar na polêmica de que, IMHO, pedestre deveria atravessar onde for melhor para ele, cuidando da sua segurança, já que ele é o maior interessado em fazê-lo da forma mais segura que for possível… como é lá no Reino Unido. mas aí vão me chamar de xiita, maluco, o pedestrenazi. De qualquer forma, é conveniente lembrar o que diz o Código de Trânsito Brasileiro:

(Fonte: Facebook SenadoFederal)
Art 29. (…) § 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Nota: “este artigo” referenciado acima só fala de normas para veículos, não para pedestres. Então não há exceção para a ordem de responsabilidade, mesmo que o pedestre esteja errado, é responsabilidade dos outros também garantir sua incolumidade.

Nota sobre a nota: Incolumidade é um sinônimo “bonito” para integridade física.

Não se trata de alguma raiva de carros ou motoristas (inclusive tenho carro e sou motorista), mas tenho muita coisa contra o uso irresponsável deles. E principalmente, tenho muita coisa contra governo que, tendo milhares de problemas para atacar no cenário de guerra que temos no trânsito, tanto na questão de infraestrutura quanto da educação, foca sua energia de educação em quem menos precisa e, muito provavelmente, em quem também é mais esquecido pelo mesmo governo na questão de infraestrutura. Desse jeito, há realmente alguma esperança de tempos melhores para os pedestres?

Pedestre, use seu facão! (Fonte: Arquivo pessoal)