Uva

O pigarro. O cheiro de fumo na barba, o hálito misturado com cerveja. E eu gosto. Gosto de te ver na janela, baforando a fumaça pra fora, e mesmo assim ela entrando pelo quarto. O lençol com cheiro. E nada disso importa.

Lembro do primeiro dia. “Bonita, empurra o livro e recosta na cabeceira, que vou tirar seus sapatos e chupar seus pés…” Dito assim, de maneira displicente. Quase com naturalidade. Pra você era. Pra mim era uma aventura no começo. Ri. Antes de jogar o livro por lado, tive o cuidado de dobrar a ponta da página. Era Caio Fernando Abreu.

Naquela época, ainda não sabia direito dos protocolos. Por via das dúvida, fui na pedicure. Nem gosto assim dos meus pés. Mas, você me viu de havaiana no metrô. Percebi seu olhar, insistente. Pensei que você fosse mais um assediador de transporte público.

Ainda acho que talvez seja.

O certo é que estou aqui. De novo. No seu apê bagunçado, com sua cama cheirando a nicotina. E uma cafeteira ligada desde as 9 da manhã. “Assim?”. Pergunto, cabreira, como sempre. Nunca deixo de ser. “Assim, bonita…”

Estava saindo do vagão quando notei que você vinha atrás. “Coincidência”. Subi as escadas rolantes até meio esquecida de ti. Notei que chovia. Aquele monte de gente acumulado na porta da estação. “Merda!”

Fui andando prum cantinho, pensando onde me abrigar, já que a estação estava lotada. Estava com medo e nojo de arriscar sair pela lateral, com os dedos de fora, quase descalça. Mas, olhava pra rua levemente alagada e pensava que queria muito chegar em casa. Até porque estava com a leve sensação que tinha ficado menstruada.

“Espera mais um pouco, Bonita…”

Você.

“Pezinhos tão lindos…”

Ousado. Pensei. Tarado, tive vontade de dizer. Permaneci calada.

“Se não fosse proibido fumar aqui, te oferecia um cigarro…” “Não fumo…” Respondi no impulso. “Merda! Agora ele vai achar que pode conversar comigo…” Mas, você não respondeu nada. Mudo ficou.

Acabei me esquecendo de você. Não.

O caso é que, eis-me aqui. Recostada em sua cama, esperando você chupar os meus pés. Dedo por dedo, conforme prometeu. Conforme vem cumprindo. Há 3 meses.“Bonita, que delícia que você veio…” De novo. Você sempre diz isso, enquanto aperta um beck.

“Preciso!”

Enquanto eu tragava, você se ajoelhou. Não sei se já era o barato, mas, que achei visão mais linda você ajoelhado pra mim. Sempre acho. Sempre volto. Primeiro você levantou meu pé esquerdo e lambeu de leve o meu dedão. Apenas o pedaço que saia pela frente da sandália. A ponta da língua na ponta do meu dedo.

“Hhhmmmm…”

Você gemeu. E a brisa da maconha se juntou ao seu gemido.

Depois, o pé direito. Esse você roçou em seu pau de leve, antes de levá-lo à boca, tragando meus dedos ainda dentro da sandália. Puxei mais uma vez. E joguei a cabeça pra trás. Você tirou minhas sandálias e lambeu a sola do meu pé esquerdo.

Você era metódico. Agora os dois.

“Pau duro, Bonita!” Rocei por cima da calça. Senti pulsar. E me lembrei, já meio difusa, daquilo que você me disse antes de sair da estação. “Quero me ajoelhar pra você…” Foi isso? Ou sou eu brisada?

Você está mesmo ali, agarrando meus pés com desespero? Lambendo entre os meus dedos, parafusando seu pescoço? “Ai, que vontade de gozar, Bonita!”

“Não!”

Eita porra, que a maconha me dava coragem. “Não goza.”

Você me olhou surpreso. Mas, apenas por dois segundos. Pra logo responder, passivamente. “Sim, senhora….”

Chupa.

E você chupou. Cada.Um.Dos.Meus.Dedos. Cuspiu, babou. Mordeu. E chupou, chupou, chupou. E quando chegou no terceiro, eu gozei. Em silêncio. Comigo mesma. O terceiro dedo. Deslizar por sua boca. Socar meu dedo na sua boca. E você gemer de novo. E circular a língua. E dessa vez quem gemeu fui eu.

“Preciso gozar, Bonita! Você deixa?”

“Levanta!”

Depois disso, só me lembro de você, alto, segurando o pau e gozando nos meus pés. Você urrava e seu gozo era branco, leitoso, abundante. Você gozou por um tempo e caiu de joelhos.

E o cheiro de maconha, cigarro e café velho agora me dando náuseas. Fechei os olhos por um tempo. E, quando abri, te vi largado no chão, com o pau mole caído pro lado, embranquecido de porra seca. Fumando o centésimo cigarro.

“Dorme aqui?”