#CULTUACINEMATIC: Wes Anderson não é só um diretor de aesthetics

Esse texano de 48 anos é conhecidíssimo por fotografia e cenários aliados a figurinos que trazem aesthetics que gritam a perfeição, mas engana-se quem acha que Wes Anderson é apenas isso. E COMO se engana. Ele não é do tipo que produz blockbusters sucesso de bilheteria ou é constantemente lembrado pelo Oscar (o que é uma pena, já que antes de The Grand Budapest Hotel ele havia recebido apenas TRÊS indicações: roteiro adaptado por The Royal Tenembauns (2001), animação por Fantastic Mr. Fox (2009) e roteiro original por Moonrise Kingdom (2012). Contudo, o seu grande trunfo para manter-se respeitado e relevante entre os cinéfilos de carteirinha é justamente a sua visão muito particular sobre o que é o mundo e como isso se encaixa no cinema.
Ele se consolidou a um nível tão próprio que não é mais confundido ou comparado com diretores similares ao seu estilo, tanto que é frequentemente estudado na internet. Tumblr, youtube, editoriais… Todos querem saber seu segredo pra filmes tão grandiosos e ao mesmo tempo tão simplistas em sua essência. Tem até uma página no tumblr dedicada apenas aos tons de cores que ele usa em cenas de seus filmes, o Wes Anderson Palettes.
Existem pequenos segredos que fazem tantas pessoas ficarem cativadas por seu estilo único de dirigir. Ele é um grande fã de Travellings (cenas longas em que a câmera, montada sobre um carrinho em trilhos como os de trem, move-se horizontalmente (da esquerda para a direita e vice-versa) e verticalmente (de trás para a frente), com muitos elementos entrando e saindo de cena em sincronia impecável, coisa que o aproxima do Teatro).
Outro grande trunfo de Wes é a simetria. A paixão de Anderson pela centralização na hora de filmar não é apenas um aspecto um tanto peculiar que ele carrega em cada longa, é um fato de que a simetria pode ser uma técnica visual extremamente eficiente para cativar a atenção de quem vê. Nosso cérebro é programado para AMAR simetrias, e ela pode ser uma ponte para criar visuais impactantes, já que somos naturalmente estimulados para adorarmos isso. Anderson “é um ótimo exemplo de como a biologia intercepta a arte, moldando porque gostamos daquilo que fazemos”. Ele faz muito mais do que brincar com a simetria a seu favor, usa cores ricas que instantaneamente chamam nossa atenção, personagens estranhamente fascinantes e objetos peculiares em suas filmagens. Sem simetria, muitas das cenas nos filmes de Wes podem parecer superlotadas de elementos, causando confusão no expectador. Porém, com seu toque de quem sabe o que faz e como faz, essa “confusão” transforma-se em um estímulo visual muito fácil de adorar e com impacto poderoso.

Outra coisa a se observar com atenção nos filmes de Wes é como os livros são incluídos em cenas estratégicas e como eles se relacionam com algum tipo de memória afetiva dos personagens. The Royal Tenenbaums têm na sua introdução, já apresentando ao expectador um livro homônimo, a mesma coisa se repetindo em Fantastic Mr. Fox. The Grand Budapest Hotel começa e termina em um livro. Moonrise Kingdom, na cena final mostra uma pintura de um lugar que já não existe. A mensagem por trás desse gesto é bem clara. Livros e telas resguardam histórias, pois as histórias vivem dentro dos mesmos.
E como não falar da paleta de cores dos filmes dele? A coerência com que as cores são usada em cada cena é de impressionar qualquer desavisado. Ele é constante fonte de inspiração para designers e quem trabalha diretamente com cores, embora seja considerado por muitos críticos não um diretor de cinema, mas sim um esteticista.

Mais um ponto a se observar: seu elenco estável. É uma máxima até meio óbvia de se falar, mas onde Wes Anderson está, sempre terá Bill Murray fazendo algum papel, mesmo que seja curtíssimo, ele é como o “muso” de Wes. Se prestarmos atenção, nos créditos de seus longas alguns nomes sempre se repetirão além de Murray. Owen Wilson (e seus irmãos Luke e Andrew), Jason Schwartzman, Willen Dafoe e Adrien Brody parecem ser os outros “musos” do diretor (Owen e Jason além de atuar, ajudam a escrever a maioria dos roteiros junto com Anderson). Ele não é um diretor de arrastar um monte de atores para cada filme, têm uma base seleta.
E como não falar também da música, um elemento VITAL para os filmes de Wes serem o que são. Ao longo de seus filmes, tanto o rock, no seu começo como cineasta; Stones, Bob Dylan, The Kinks e Bowie aparecem na soundtrack de Rushmore e The Royal Tenembauns como também as mais românticas e angelicais do pop francês. Existem alguns momentos musicais em seus filmes que beiram o inesquecível, como Seu Jorge e as versões que ele fez especialmente para The Life Aquatic With Steve Zissou (com direito a vários covers de David Bowie aprovados e elogiados pelo mesmo). Ou a cena que Gwyneth Paltrow desce do ônibus pra encontrar seu irmão adotivo (e amor da sua vida) enquanto “These Days” toca em The Royal Tenembauns. E o momento fofíssimo de Moonrise Kingdom que as duas crianças (Suzy e Sam) dançam ao som de Françoise Hardy? “Le Temps de L’Amour” nunca mais foi vista do mesmo jeito depois disso.

As crianças importam nos filmes de Wes Anderson. Ele mesmo diz que “As crianças sempre sabem o que querem. Há uma simplicidade em seu modo de pensar, a falta de preconceito, o que os liberta de todas as pressões dos adultos. Elas podem estar erradas, mas geralmente o fazem sem se sentir culpa por isso”. Moonrise Kingdom trás duas crianças como personagens principais, os já citados Suzy e Sam, que fogem para uma ilha belíssima e deserta — que se chama Moonrise Kingdom — para viverem um fofíssimo primeiro amor.
As famílias disfuncionais também são um tema recorrente nas histórias que Anderson conta. The Royal Tenembauns conta a história de uma família que tenta se adaptar ao retorno do pai, depois de 22 anos fora sem ao menos se importar em como suas crianças cresceriam, alegando uma doença terminal para justificar seu regresso à casa, reunindo todos novamente sob o mesmo teto. Em The Darjeeling Limited, o diretor desconstrói totalmente aquele estereótipo conservador dos laços sanguíneos entre irmãos, retratando três irmãos e os colocando em um trem que viaja por toda a Índia, para que eles restabeleçam sua relação de cumplicidade e irmandade.

O fantático mundo de Wes também é criado com o apoio dos diálogos muitas vezes carregados de ironia e de um tom nonsense de seus queridos personagens, que dizem coisas que talvez nenhum ser humano teria coragem de dizer, com um humor sutil disfarçando o impacto daquela frase, dando ao expectador a incerteza da próxima fala que ouvirá de qualquer um dos personagens.


Se você é um admirador ou não, Anderson é de fato um diretor icônico, e como todo diretor icônico, ele deve ser apreciado, comentado, até dissecado se possível. Como alguém que vê na arte uma forma aprimorada de contar suas histórias, o amadurecer do ser humano, suas resignações, idiossincrasias, um universo tão estranho quanto particular e familiar, que dialoga direto com o público e suas emoções mais pueris (ou até as disfarçadamente escondidas), seu trabalho não deve ser ignorado. Ele fala de vida de uma maneira muito particular, e nos enxergarmos diante de sua tela e de seus personagens sem essa malícia cansada e o cinismo já datado, é um refresco e tanto pra alma.

