O cancelamento de The Get Down diz mais sobre as pessoas do que a própria série.

Tentando entender o motivo pra uma série tão incrível com tanta representatividade ter sido cancelada sem mais nem meno. Foi assim que fiquei com o anúncio oficial de que The Get Down não seria renovada pelo Netflix. E fiquei pensando: porquê?

Quando a série foi anunciada, com toda pompa e circunstância, a empresa vendia a ideia de uma série cheia de representatividade, um diretor estrelar (Baz Luhrmann) e uma soundtrack de arrepiar até os pelinhos do dedo do pé. Conforme se foi passando o tempo, o Netflix desistiu da ideia de vender a série, e deixou tudo nas costas do público cativo, que fazia o que podia pra que a mesma fosse valorizada.

Dentro da série, haviam chances de plots incríveis, como Dizzee e Thor (imagina quão incrível seria ver um casal gay interracial ambientado na década de 70?). Fora que pela primeira vez, vi o lendário Grandmaster Flash, um dos pioneiros da cultura hip-hop, ser retratado como verdadeiramente merece, tendo seu legado honrado e sendo apresentado pra um número de pessoas que nem fazia ideia de quem ele é.

Sem contar história LINDA de amor e de luta de Mylene e Zeke (sem dúvida o casal mais bonito e talentoso que já vi) também ficará em aberto. E aquele poema de Zeke? Arrepiante. Tudo o que ele escrevia para ela (e sobre sua própria vida) me dava vontade de tirá-lo da tela da TV e trazê-lo pra mim. Mylene, tão talentosa, tão bonita, voz de anjo, alguém que tinha um sonho e não media esforços para realizá-lo. QUE MULHER!

Uma série que além de dar foco a cultura hip-hop, um elenco negro e personagens com histórias no mínimo diversas e interessantes não merecia mais espaço?

Para todos nós que assistíamos e nos encantávamos, sim. Mas pro Netflix, que já estava com outro projeto engatilhado e com uma divulgação massiva planejada, não.

Se o Netflix se importa tanto com militâncias, não faz o menor sentido cancelar uma série que estava apenas começando e que não recebeu nenhuma divulgação. Mas como bem podemos prever, o tal #militei e #lacrei da empresa só vale pra eles, se houver rentabilidade financeira. Não importa se temas importantes ou representatividades serão soterradas.

É mais lucrativo ganhar dinheiro com casalzinho heteronormativo e romantização de suicídio no papel de “couple goals”, não é?

Esse cancelamento mostra a postura da empresa em relação a representatividade que vive dizendo defender, mas além disso, diz muito sobre o público: ainda não estão preparados para algo que não tenha branquitude e que não tenha como plot apenas um casal hetero.

Isso diz mais sobre as pessoas do que eu meramente posso presumir.