O GRAMMY É RACISTA?

Eu poderia chegar falando GRAMMYS SO WHITE, mas isso é óbvio demais. Nem é preciso ser um gênio pra saber que a bancada da Recording Academy tem pavor de álbum com crítica social. Se for de artista negro então… Podemos falar de Nina Simone, Aaliyah, Aretha Franklin, James Brown, Tupac… Até de Michael Jackson, que sentiu o gosto amargo disso quando o maravilhoso Off The Wall, um salto de frescor em tudo que a música estava vivendo, foi boicotado no Grammy em 1980 e depois de Thriller, onde a Academia se viu OBRIGADA a dar AOTY a um negro que simplesmente vendeu como água com o que para mim e para muitos outros, é o melhor ábum de todos os tempos, foi continuamente esnobado. Bad, disco seguinte a Thriller e que é replicado a exaustão como inspiração pelos cantores de neo r&b atuais, não ganhou sequer um gramofone em categorias vocais. Na época, Jackson até disse que eles julgavam “sua aparência, não sua música”. Depois disso, se excluirmos We Are The World, ele ganhou com Leave Me Alone e Scream (Best Video) e outros dois pelo conjunto de sua obra, sendo um póstumo. Quando estava com seus irmãos no Jackson Five (depois The Jacksons), também foram boicotados, sendo indicados apenas UMA vez e perdendo. Michael foi continuamente indicado e esnobado, escrutinado pela mídia e pela crítica, até sua morte. O rei do pop, fonte de inspiração onde TODO ARTISTA bebe da fonte, não teve tratamento diferente de nenhum outro artista negro. Ganhou por vender feito água e dar lucros imensuráveis para esse indústria majoritariamente branca e conservadora. Posso citar também Jimmy Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, contínua inspiração dos atuais guitarristas, que revolucionou a forma de olhar e tocar o instrumento… Ele tem Grammy? Eu mesma respondo. NÃO. Posso citar Nas (indicado 11 vezes e nunca tendo ganho) e Snoop Dogg (com 18 indicações, também nenhum Grammy), dois rappers com influência gigantesca e grande impacto social para a cultura e também esnobados pelos jurados da Recording Academy. Ou de Prince. MEU DEUS, PRINCE! Uma lenda na música, que morreu sem receber nenhum prêmio de álbum do ano. Kanye West, onde aqui não coloco julgamentos sobre suas ações, mas sim sobre sua música, continuamente chamado de “invejoso” e “recalcado” por fãs de cantoras pop por expôr a sujeira que a Recording Academy esconde embaixo do tapete, foi indicado 57 vezes. Ganhou 21. Nenhuma vez em categoria fora do rap/r&b. My Beautiful Twisted Dark Fantasy, álbum lançado pelo mesmo em 2010 e considerado um dos melhores da década, também foi esnobado, mesmo fazendo toda a crítica branca se curvar e aceitar sua excelência artística. JAY Z, mogul do rap, com TREZE álbuns número #1, recebeu 59 indicações e ganhou 21, nenhuma fora de categorias urban. Bob Marley, aquele quem trouxe projeção mundial para o reggae, jamais foi premiado pelo Grammy. Beyoncé, o sinônimo de excelência artística viva atual, com 62 indicações, ganhou 22. 18 em categorias urban. Nenhum AOTY. Os dois últimos ábums de rap a conseguirem AOTY foram o belíssimo The Miseducation of Lauryn Hill, em 1999 (sendo a última mulher negra a conseguir esse feito) e o incrível Speakerboxxx/The Love Below, do Outkast, em 2004. Eu poderia citar muitos outros exemplos de excelência negra na música esnobada pelo Grammy, mas acho que esses exemplos são o suficiente. Todos artistas à frente de seu tempo, quebradores de paradigmas, que estimulavam não só a excelência musical, mas a reflexão social. Nina Simone foi um grande exemplo do racismo na indústria quando começou a colocar o dedo na ferida não só no próprio racismo, mas também nas desigualdades sociais e participando fortemente em movimentos de resistência negra, como os Panteras Negras. Só esse ano, 2017, ela foi reconhecida pela Recording Academy com o Lifetime Achievement. Uma vida inteira dedicada ao empoderamento negro, a luta pelos direitos civis e só em 2017 isso é reconhecido? Não me surpreende quando o conselho de votação do Grammy é o “ideal americano”: homens brancos e elitistas. Mas o que me surpreende é em tempos de amplo questionamento, de luta contra o racismo, de movimentos como o Black Lives Matter, esse TIPO de coisa continuar acontecendo. Continuam acreditando e batendo na tecla de que dar prêmios pra negros em categorias que ELES inventaram o estilo musical está mais do que suficiente. Não está. A organização do evento continua achando que a música e a cultura negra merecem migalhas. Imagina se eles parassem de “esquecer” que a maioria dos ritmos foram criados justamente por negros, a quem eles tem tanto pavor de colocar como posição de destaque na hora e premiar. Tenho certeza que para muitos artistas negros ainda deve ser uma honra receber um Grammy, mas tenho certeza que eles amariam ainda mais receber em categorias que já são colocadas como “os prêmios para a música negra”. É como já ouvi sendo replicado muitas vezes no Twitter: “eles AMAM a cultura negra, amam se apropriar dela, mas nos odeiam”. E é que eu penso a respeito desse racismo escancarado. E não só da Academia, mas dos fãs de pop que continuam achando que falar dos privilégios de sua fave branca superestimada é “inveja”. Frank Ocean, outro talentosíssimo artista negro escrutinado, deu sua opinião acerca disso em carta aberta, confirmando seu boicote e colocando em pauta a questão do Grammy 2016 ter premiado um álbum pop de uma cantora branca que vendeu como água, mas que não trás nada reflexivo para a cultura ao invés do álbum que foi simplesmente OVACIONADO por todos os veículos de crítica, mas que é de um rapper negro. O que vimos como resposta? Os fãs da cantora pop perguntando “quem é Frank Ocean, esse invejoso?”. Bom, se você não vive numa bolha onde só se fala de cantora pop, vai saber quem é Frank Ocean. Eu não preciso nem exaltar a excelência artística dele, os discos dele fazem isso por mim. Por último, eu só queria deixar aqui a reflexão: o racismo entranhado no Grammy É MUITO MAIOR do que vocês tentando justificar o favorecimento de suas favoritas brancas ganhando com álbuns absurdamente básicos. Isso não é sobre “sentir inveja delas” ou “as odiar”. Nunca foi. É sobre favorecimento branco. Sobre RACISMO.