Antropofagia oswaldiana revisitada.

Por Márcia Mendonça

O que há em comum entre a montagem da peça O Rei da Vela, de 1967, e a de hoje? Qual a atualidade do texto de Oswald de Andrade? São épocas, espaços e contextos diferentes. Cinquenta anos separam a estreia do espetáculo, na turbulenta década de 1960, na capital paulista, da remontagem de 2017, apresentada no Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiro, São Paulo.

Escrita por Oswald de Andrade em 1933 e publicada quatro anos depois, a peça comandada por José Celso Martinez Corrêa nas duas montagens tece uma crítica contundente à elite brasileira por meio de personagens decadentes, inescrupulosos, falidos, verdadeiros representantes da mescla da tradição, da família e da propriedade. Em tom farsesco, mostra as falcatruas do personagem central, o agiota Abelardo I, fabricante de velas e credor que mantém seus clientes endividados em jaulas, açoitados por Abelardo II, seu sócio.

Ao atravessar o espaço-tempo desse intervalo, a remontagem de O Rei da Vela discute ainda o anacronismo do país, sua subserviência ao capital estrangeiro, a manutenção de estruturas arcaicas o convívio entre oligarcas, fascistas e capitalistas globais. O espetáculo celebra também os 80 anos do diretor José Celso Martinez Correia e do ator Renato Borghi, que retornam ao elenco, assim como o cenógrafo Hélio Eichbauer, criador do cenário original.

MONTAGEM HISTÓRICA

Considerada um dos marcos da história do teatro brasileiro, a montagem de 1967 inovou ao apresentar linguagem e estética ousadas. Dialogou, num contexto de ditadura civil e militar, com a Tropicália, o filme Terra em Transe (1967), o modernismo, a chanchada, o circo, a literatura, a poética visual de Hélio Oiticica e Lygia Clark. Em meio ao humor antropofágico, anárquico, circense, discutiu e problematizou questões no âmbito sócio-político-econômico, tornando-se símbolo de resistência política, trazendo, em seu elenco, os atores Renato Borghi, Ítala Nandi, Dirce Migliaccio, Fernando Peixoto, Etty Fraser, Otávio Augusto, entre outros.

Antítese do teatro burguês, travava um confronto direto com a classe média da época — um dos sustentáculos do golpe de 1964 –, que se deleitava com espetáculos do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), talhado na dramaturgia europeia. O Oficina rompia com esse padrão, propunha uma nova estética, interagia com o público, usava palavrões, afrontando, muitas vezes, os valores burgueses. No limiar de 1968, quando ocorreu “o golpe dentro do golpe”, foi alvo da censura que acusava o grupo de fazer um “teatro de tese”, “cheio de perplexidades, contradições e taras”, sugerindo sua proibição.

ATEMPORALIDADE

Uma peça escrita nos anos de 1930, montada na década de 1960 e revisitada em 2017 surpreende por sua atualidade e vigor. Em tom alegórico, a montagem continua fiel à primeira, retratando a corrupção e a decadência da burguesia por meio da agiotagem comandada por Abelardo I e seu sócio, o domador Abelardo II, porém, faz adaptações, e insere o senador Aécio Neves (Never) e Mrs. Jones (Donald Trump).

A crítica se mantém impiedosa em relação ao capitalismo selvagem, ao fascismo emergente e aos políticos entreguistas. Atualíssima é a fala de Abelardo I: “Tenho estudado melhor. Somos parte de um todo ameaçado — o mundo capitalista. Se os banqueiros imperialistas quiserem…. você sabe, há um momento em que a burguesia abandona a sua velha máscara liberal. Declara-se cansada de carregar nos ombros os ideais de justiça da humanidade, as conquistas da civilização e outras besteiras. Organiza-se como classe. Policialmente. Esse momento já soou no mundo, e implanta-se agora, num instante, nos países onde o proletariado é fraco ou dividido”.

A situação política brasileira do momento vigente foi de suma importância para a encenação do espetáculo, com três horas e meia de duração, como atesta o diretor José Celso: “O golpe midiático, jurídico-parlamentar, a serviço de rentistas como o banqueiro Abelardo I foi mais sofisticado e mais violento que o de 1964. O Rei da Vela de 2017 fala de um país subjugado por empresários pelo predomínio do capital norte-americano.

O golpe parece que foi dado para que pudéssemos reencenar este épico sobre o capitalismo global”. Fiel à concepção arquitetônica do cenógrafo e arquiteto Flávio Império, Hélio Eichbauer recriou os cenários da primeira montagem com a mesma estrutura giratória ao centro do palco, reforçando a ideia de circularidade presente nos três atos da peça. Desenvolvidos a partir dos desenhos originais, os figurinos foram ressignificados, com predomínio de cores inspiradas nas obras de Anita Malfatti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, de elementos da vanguarda russa, do expressionismo alemão, do circo e do cinema mudo. Máscaras pintadas, as personas, dão um toque vanguardista e circense aos personagens. No elenco, Renato Borghi como Abelardo I novamente, Sylvia Prado, Marcelo Drummond, Túlio Starling e demais atores do Oficina.

RELEITURA

O grande mérito dessa remontagem é a releitura do texto, escrito no período de ascensão do nazi-fascismo, anos 1930, e que hoje assume contornos nítidos no Brasil e no mundo. Sem preocupações com fidelidade a qualquer visão engajada, partido político ou ortodoxia alguma, o Oficina, passado e presente, continuando conectando-se à toda forma de linguagem e expressão artísticas, como música, literatura, cinema, carnaval, chanchada, vanguardas, fazendo sua leitura e releitura de mundo.

Mantém sua coerência quanto à crítica sociopolítica, a ausência de limites e barreiras na questão de gêneros, na intercomunicação geral, procurando uma forma de expressão fincada na nossa brasilidade e nas nossas raízes. “TragiComédia Orgya chegou no eterno retorno de O Rei da Vela, Antropofagia de novo, na Tropicália. Sim, sem ismo, sem tropicalismo: Tropicália Antropófaga Acordada agora nesta Primvera de 2017 do Viva a Arte!”, afirma Zé Celso.

Experiência teatral que encontra eco nas palavras do dramaturgo alemão Bertold Brecht: “o teatro deve refletir a desordem do mundo, eis o assunto da arte. Impossível afirmar que sem desordem não haveria arte, e tampouco que poderia haver uma: não conhecemos mundo que seja desordem”. O Rei da Vela, 2017, espetáculo que se expressa por meio de contradições e conflitos , de múltiplas possibilidades de uma interpretação não linear, não convencional do presente. Arte em tempos de desorientação.