Ocupe a praça e traga o queijo!

Por Pedro Ferreira

Durante o Carnaval na cidade de Recife, diferentes nações de Maracatu de Baque Virado saem de suas vilas junto a seus batuqueiros, sua corte real, suas calungas, suas espiritualidades e suas histórias, para competir pelo prêmio de primeiro lugar. A competição carnavalesca acontece na Avenida dos Maracatus e foi criada, principalmente, a partir dos esforços do mestre da cultura popular falecido no ano passado, Naná Vasconcellos. Apesar de atuar como momento de visibilizar a cultura popular e envolver as pessoas que a fazem em um projeto único, a competição acaba gerando, também, uma rivalidade entre os grupos.

Nesse sentido foi criado em 2000 o encontro de maracatus “Traga a Vasilha” que busca, por meio da sagrada roda, propiciar um momento de compartilhamento entre os integrantes das várias nações. Ao tocarem em conjunto as tradicionais loas, os batuqueiros reverenciam seus mestres, evocam seus ancestrais, e lutam pelo direto de ocupar a rua com as expressões musicais populares produzidas pelos escravos nagôs, no nordeste do país.

O maracatu, datado do final do século XIX, é o ritmo afro-brasileiro mais antigo do Brasil e, desde a época colonial, sofre repressões por ser parte de uma cultura negra, nascida com muita resistência às margens da cidade e de seus espaços de convivência.

“Toque o gonguê, balance o ganzá/ É no baque virado que o Estrela vai passar / Cante sinhá, toque sinhô / Sou afro-africano e também nação nagô”
Nação Estrela Brilhante de Recife

VERSÃO MINEIRA

Inspirado no Traga a Vasilha, acontece o movimento “Tira o Queijo” na Praça da Estação, em Belo Horizonte. Esse movimento reúne, “só as sextas” como canta uma de suas toadas, diversos grupos de maracatu da região metropolitana. A roda de maracatu em praça pública ressoa ao longo do hipercentro, convidando todos aqueles que podem ouvir seus tambores para conhecer um pouco acerca do patrimônio cultural dos povos negros, normalmente ocultado da história do país. Desta forma, o Tira o Queijo, enquanto difusor do maracatu, atua como espaço de formação do saber popular, e como espaço de memória e referência à cultura negra na cidade.

Encontro Tira o Queijo na Praça da Estação. Crédito: Palestina Guarani Kaiowá

A manifestação do maracatu em BH foi possível com a criação do grupo percussivo Trovão das Minas, pelo músico Lenis Rino. O grupo, atualmente com 17 anos, está sob regência da diretora musical Daniela Ramos. Daniela, além de ser uma das principais articuladoras do Tira o Queijo, é também regente de um grupo percussivo de maracatu voltado exclusivamente para mulheres, chamado Baque de Mina. O grupo desenvolve uma experiência de aprendizado em conformidade com a tradição pernambucana. Contudo, traz questões contemporâneas, como a liberdade da mulher para extrapolar os limites da dança na cultura popular e ocupar o batuque, afinal “as racha é rocha”, como diz o lema do grupo.

Trovão das Minas na Igrejinha da Pampulha. Crédito: João Gabriel

Além dos mencionados, existem vários outros grupos percussivos, como o Pata de Leão, Couro Encantado e mais, dedicados a estudar o maracatu em Belo Horizonte. Esses grupos cumprem um importante papel na valorização e difusão da cultura popular brasileira. Entretanto, para que isso seja feito, carecem de constantes incentivos voltados para a área da cultura, e de instiga para resistir frente a todos os enfrentamentos de intolerância religiosa e da repressão da polícia que estigmatiza os movimentos populares.

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