Uma luz no mercado editorial

Enquanto vender livros se torna uma tarefa cada vez mais difícil, uma editora independente da Bahia tenta abrir seu caminho

São tempos difíceis para se viver de literatura. Em uma pesquisa feita em 2016, e encomendada pelo Instituto Pró-Livro, constatou-se que 40% da população brasileira não lê, e que 30% nunca comprou um livro. A maioria das leituras se constitui de livros indicados para a escola, e o livro mais lido, no país inteiro, é a Bíblia. O mercado editorial não anda com problemas apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, uma das mais tradicionais redes de livrarias, a Border’s, foi obrigada a encerrar atividades ainda em 2011: sinal dos tempos? Há quem culpe e-books, uma justificativa que não se sustenta no Brasil — por aqui, em um estudo de 2017, foi revelado que vendas de e-books representam apenas 1,09% do faturamento total das editoras. Então por que ainda não lemos? Ainda existem os que apontam o dedo para a internet, ou para a televisão; para a propagação desenfreada de informações; para vídeo-games. Não somos um país de leitores. E, neste cenário, como sobreviver de literatura?

Alec Silva é um jovem escritor e editor. Com seu amigo, Samuel Cardeal, ele fundou a editora independente EX, sediada em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. A ideia da EX nasceu em 2013. Silva, interessado em auto-publicação, decidiu fundar um selo, mas a editora não vingou até a entrada de Cardeal, outro autor e também um diagramador. A EX edita alguns e-books de maneira gratuita e oferece serviços ou indica profissionais acessíveis a autores indies. Silva não romanceia a tarefa: diz que o trabalho envolve mais a satisfação pessoal do que lucros financeiros.

“Quentin tem que morrer”, um dos livros publicados pela EX.

“O maior desafio é conciliar tudo”, explica. “A equipe é basicamente formada por Samuel e eu, além de alguns poucos parceiros, e acabamos por fazer bem menos do que gostaríamos pelos autores que nos procuram, e alguns estão tão acostumados a pagar para publicar que nos perguntam quanto cobraríamos”, diz Silva, que evita a prática da conhecida vanity press, ou publicação de vaidade, o autor pagando para ter seu livro publicado, contrariando o método tradicional do mercado, em que a editora paga ao escritor.

Junto com Cardeal, Silva já deu início a projetos como o Primórdios do Fantástico Brasileiro, que pretende lançar obras de literatura fantástica de autores clássicos. Outras publicações são menos ambiciosas: autores independentes e ainda desconhecidos, contos de terror e de fantasia.

“O mercado indie é muito variado”, conta Silva. “E isso é bom, muito bom. Uma democracia que permite a todos publicarem seus trabalhos, seja por diversão ou não, seja gratuito ou pago, virtual ou impresso”. Ele diz que o leitor pode encontrar, com algumas garimpadas, ideias e talentos que não acharia no mainstream, que, segundo Silva, anda saturado. “Há bons autores no mercado indie, assim como há maus; e daqui saem alguns nomes que se tornam conhecidos do grande público. E isso é maravilhoso! Mas, como todo mercado, ainda carece bastante de certo profissionalismo para muitos que querem levar a escrita mais a sério, assim como há muita resistência do leitor ao que não está pelas médias e grandes editoras. Mas talvez o tempo mude isso para melhor”, ele espera.

E talvez seja verdade. Em tempos de crise no mercado editorial, quando grandes editoras e livrarias precisam cortar seus gráficos, a solução pode estar nos pequenos editores: em nichos que levem literatura para aqueles que verdadeiramente desejem consumi-la, mesmo que não se crie best-sellers.

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