Cinco Balas (Parte 1: Sam)

Aquela não era a primeira vez que o vazio negro do cano de uma arma olhava diretamente para a minha testa. A diferença era que antes, do outro lado de uma Enfield 1858 de calibre .577, havia meu pai, esbravejando e cuspindo o quanto eu era uma decepção para a família, enquanto soldados do Império invadiam uma propriedade particular nos arredores de Assunção. Se meu próprio pai esteve a ponto de me matar, não seria um completo estranho com um revólver Dragoon na mão que me faria ter medo.

– Se não quiser um novo buraco na cara, é melhor pegar suas coisas e dar o fora do meu celeiro — disse o homem, encostando o metal gelado do revólver na minha pele.

Tentei argumentar que estava muito frio e pedi para permanecer ali, ao menos até o dia clarear, mas o sujeito disse que preferia tacar fogo no celeiro a ter um invasor perto de suas filhas. Recuei alguns passos e deixei as mãos à mostra, para deixar claro que não representava ameaça. Enfiei o chapéu na cabeça, joguei o cobertor sobre os ombros e peguei a estrada, pedindo desculpa pelo incômodo.

Já estava no Texas há mais de dois anos e ainda não tinha emprego ou um lugar para morar. Todos os meus pertences eram os trajes que comprei assim que desembarquei do vapor em Allen’s Landing, para me desfazer do uniforme da Guarda Nacional, e uma sela que eu tinha encontrado perto do corpo de um homem acampado. A sela tinha uma bolsa com cobertor, cantil e um Colt Paterson sem balas, que eu mantinha escondido para não chamar atenção. Ainda não tinha um cavalo, mas acreditava que era apenas questão de tempo.

A fazenda do meu ex-anfitrião pouco amistoso ficava a duas horas de caminhada de uma pequena cidade chamada Fort Worth. Não era grandes coisas, mas em 1873 já tinha algumas lojas, saloon, taverna e até um banco. Fiquei sentado na margem do rio Trinity torcendo para que um peixe saltasse dali. Estava com tanta fome que poderia devorá-lo ainda cru, como um selvagem qualquer. Em casa, isso nunca teria sido um problema. Bastava dar ordens às criadas, que rapidamente me trariam algo para comer. Elizabeth mantinha todas sob controle rígido. Mesmo com todo o conforto daquela época, não sentia saudade da convivência com o tenente-coronel Inácio Sampaio e sua mulher.

Se a fome me corroía por dentro, era o frio que me castigava por fora. Naquele inverno, as temperaturas chegavam até os -7F, que só mais tarde fui descobrir que era -21°C. No Rio de Janeiro, 15°C já parecia um frio severo. Eu tentava me manter sempre em movimento e com as mãos e rosto cobertos. O problema era quando nevava, que me obrigava a procurar abrigo. Sempre me metia em algum galpão ou armazém. Vendo que os primeiros flocos de neve já começavam a cair e que a noite ainda estava distante, achei melhor ir de comércio em comércio procurando um lugar para ficar.

– Eu não tenho como te contratar por muito tempo, mas estou mesmo precisando de ajuda pelos próximos dias. — Aquele era Old Bob Beauregard, dono do sétimo estabelecimento em que entrei na Main Street. Nos demais, só recebi ameaças e xingamentos. Alguns deles eu nem compreendi, pois não estavam na ementa das aulas de inglês que Elizabeth me dava depois do jantar. Meu pai sempre achou importante que eu aprendesse outros idiomas, especialmente a língua nativa de sua mulher. — O Mike, que arruma a loja para mim, perdeu a mãe e precisou ir para a Louisiana às pressas. Só deve voltar na semana que vem. Ou quem sabe na outra…

Old Bob tinha uma mercearia. Vendia batatas, grãos, lenha e qualquer outra coisa que os clientes precisassem. Ele era um homem muito simpático, com uma barba densa cobrindo as bochechas e o queixo. Andava de um lado para o outro mancando, apoiado em uma muleta velha.

– Qual o seu nome, garoto, e de que lugar do México você veio?

– Não sou do México… Eu vim do Brasil — disse a ele, mas na hora percebi que o velho nunca tinha ouvido falar do meu país. — Meu nome é Gonzaga Sampaio.

– Sam… Payo? Nome esquisito… Tudo bem, Sam. Por que não começa trazendo aqui pra frente as caixas que estão no estoque? Você pode dormir lá atrás e comer com a minha família. Quando o Mike voltar, eu te recomendo para alguma das outras lojas da cidade. Meu pai sempre dizia que, se um homem trabalha bem, não falta serviço.

Ainda que fosse um trabalho temporário, parecia que eu estava perto de finalmente ter a vida que eu sempre quis: independente, sem as amarras do passado e longe da crueldade do meu pai. Foi então que a porta se abriu e eu ouvi uma voz rouca de mulher saudando Old Bob.

– Sam, venha conhecer. Essa aqui é minha filha Clementine Beauregard.

Ela tinha grandes olhos castanhos e um cabelo escuro um pouco desarrumado pelo vento. Tinha cheiro de banho tomado e sorria com sinceridade. E, desde o momento em que coloquei os olhos nela, sabia que Clementine seria a minha razão de viver. Ou o motivo da minha morte.


Daniel Cúrio é jornalista e autor de Garota de Destruição em Massa, Forfait e Colônia Humana (goo.gl/uKjyt9)

(Arte da capa por Yuri Salvador)