Uma moeda pelos seus pensamentos

Um bipe. Uma foto de Margot aparece na visão periférica de Vera.

“Bom dia”, pensou Vera.

“Bom dia, querida! Nosso jantar está confirmado para hoje”, pensou Margot.

As amigas comunicavam-se usando o onThoughts, o sistema de compartilhamento de pensamentos mais popular no país. A tecnologia havia surgido em resposta à crescente onda de terrorismo. Scaners cerebrais foram instalados em pontos estratégicos da cidade e liam os pensamentos da população. Não demorou para que algumas empresas achassem uma finalidade comercial para os equipamentos.

“Eu e o Cássio estaremos lá às oito em ponto”, pensou Vera. “Agora eu preciso ir. Tenho um dia longo pela frente.”

“Beijinhos”, despediu-se Margot em pensamento, e desconectou o onThoughts.

Aquele dia tinha tudo para ser conturbado. Para se preparar para sua longa jornada, Vera parou em uma cafeteria. Com um macchiato em mãos, pretendia ler as notícias da manhã, mas percebeu que havia esquecido seu telemonitor em casa. “Maldição”, ela pensou. “Me sinto nua sem meu telemonitor.” Sem ter como se distrair, acabou pensando nas tarefas do dia. Tinha uma apresentação importante no trabalho. Havia preparado um relatório com bastante cuidado, mas sabia que o porco do seu chefe acharia milhares de defeitos. “Se ao menos ele olhasse para os números e não para o decote da Carla, aquela oferecida…”

Enquanto esperava o ônibus, Vera lembrou do jantar marcado por Margot. Mais uma vez, a amiga esfregaria em sua cara toda a sua riqueza. Sem falar no novo marido. Quem se casa sete vezes em cinco anos? Por falar em casamento, o Cássio sempre detesta os jantares da Margot. Vera se perguntava como arranjou um marido tão chato. Certamente, o Eduardo, do apartamento ao lado, seria mais animado. Sem falar do corpo. “Ai, que corpo.”

Vinte minutos depois, Vera chegava ao trabalho. Como sempre, cumprimentou a todos com quem cruzava, mas sentiu algo estranho. As pessoas a olhavam com desconfiança e cochichavam quando ela passava. Carla, que sentava ao seu lado, tinha as sobrancelhas arqueadas e as veias do pescoço saltadas. “Você vai receber o que merece!”, resmungou entre dentes a colega. Em sua mesa, Vera encontrou um bilhete recomendando que ela passasse no Departamento Pessoal. Estava demitida.

Em uma caixa, ela colocou todos os seus pertences. Os seguranças da empresa a observavam e um deles deixou escapar um comentário maldoso: “Talvez seu vizinho Eduardo possa consolá-la.” Vera estava confusa. Achou que tinha entendido errado e continuou seu caminho para fora da companhia onde trabalhara pelos últimos oito anos. Já na rua, tentou acessar o onThoughts para falar com seu marido, mas algo estava errado. Só então ela percebeu.

Após a conversa com Margot, ela não havia se desconectado. Ao longo de toda a manhã, seus pensamentos estavam vazando pelo sistema, podendo ser acessados por qualquer um. Os usuários estavam compartilhando tudo o que se passava pela cabeça de Vera, desde os pensamentos mais banais até os mais pessoais. Sua intimidade mais profunda estava ao alcance de qualquer pessoa e nada que ela tentasse garantia sua privacidade novamente.

Quando voltou para casa, tudo o que encontrou foi uma carta de Cássio dizendo que aquilo tudo era demais para ele. O marido precisava de um tempo e ficaria hospedado em um hotel até tomar uma decisão sobre o futuro do casal. Vera chegou a passar por Eduardo no corredor, mas o vizinho baixou a cabeça e correu para casa, evitando até fazer contato visual. Por mensagem de texto, Margot desmarcou o jantar. Disse que avisaria quando ela estivesse no oitavo marido.

Com seu mundo desmoronado e sem poder entrar em contato com qualquer um pelo sistema de compartilhamento de pensamento, Vera foi diretamente a uma subsidiária da onThoughts. Lá, foi informada de que era um mau funcionamento dos equipamentos da corporação e que não havia previsão para que seu serviço fosse restabelecido. Todos os pensamentos de Vera continuariam vazando indefinidamente.

– Por que a senhora não tenta… não sei… simplesmente não pensar em nada comprometedor? — comentou o funcionário da onThoughts, tentando conter o riso.

– Eu poderia falar sobre algumas coisas bem nojentas que eu estou pensando a seu respeito agora! — esbravejou Vera.

– Não é necessário, senhora. Eu estou acompanhando seus pensamentos — respondeu o sujeito. — E me sinto extremamente ofendido com o lugar onde a senhora está sugerindo que eu enfie minhas opiniões.

Em casa, ela tentou se recompor. Precisava pensar em uma maneira de sair daquela situação, mas os demais usuários do sistema pareciam estar gostando daquilo. Insistentemente, conhecidos e estranhos mandavam mensagens para o telemonitor de Vera. “Manda thoughts”, dizia a maior parte dessas pessoas. “Como se fosse possível parar de mandar”, pensou a mulher. Imediatamente, foi possível ouvir um murmúrio abafado atravessando todas as paredes. A cidade inteira ria de seu sofrimento.

Com a vida destruída, foi inevitável que Vera pensasse em suicídio, mas faltava-lhe coragem. Não conseguiria pular do alto do prédio, tomar um coquetel exagerado de remédios ou cortar os pulsos. Era medrosa demais para tentar. Além do mais, o Corpo de Bombeiros já estaria arrombando a sua porta no momento em que ela tomasse a decisão. Não havia mais segredos entre ela e o resto do mundo.

Talvez a solução fosse uma jornada espiritual. Buscou uma religião para esvaziar a mente, mas logo foi convidada a deixar o templo por causa de seus pensamentos sobre os ritos e os sacerdotes. Numa tentativa desesperada, apelou para o uso de drogas. Acreditou que o ideal seria manter mente inebriada até que a onThoughts conseguisse desconectá-la do sistema. Não adiantou. A lisergia de seu raciocínio atraiu todo um novo grupo de usuários que não estava interessado na fofoca do cotidiano que eram seus pensamentos antes.

Vera ainda tentou ir novamente ao escritório da onThoughts. Pretendia ameaçar quem fosse preciso, até conseguir o que queria. Já havia separado os contatos de alguns advogados para processar a empresa. Sua tentativa, contudo, foi frustrada. Como todos sabendo exatamente o que ela faria, a companhia se antecipou e fechou a portas mais cedo — situação que se repetiu todos os dias que ela pensou em voltar ao local.

Meses se passaram e Vera continuava exposta, mentalmente nua para quem quisesse ver. Não tinha contato com mais ninguém, pois não havia quem quisesse estar pessoalmente envolvido naquela situação degradante. Vera ainda era obrigada a conviver com o vício recém-adquirido. Enlouqueceu. Seus pensamentos pararam de fazer sentido e as pessoas perderam o interesse. Um dia, a onThoughts finalmente conseguiu corrigir o problema. Ela nunca soube. Vagava pelas ruas da cidade evitando os olhares julgadores — e os pensamentos.

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Daniel Cúrio é jornalista e autor do romance Forfait (https://www.amazon.com.br/dp/B01MQ0GRTR) e dos contos de Colônia Humana (https://www.amazon.com.br/dp/B01B3FKHEE)