Êxodo rural de jovens prejudica o desenvolvimento da agricultura familiar

Luana Velloso

Foto: Reprodução/ Agência Brasil

O movimento de migração do campo para a cidade é um fato incontestável há muito visto em todo Brasil. Ainda assim, a Bahia é o Estado que tem a maior população rural do país com 3.914.430 habitantes. No entanto, de 2000 a 2010, 383.472 pessoas migraram para a cidade, desse total cerca de 180 mil é população jovem, com idade entre 16 e 29 anos, em plena idade reprodutiva. Levando em consideração que 70% do que chega à mesa da população vêm da agricultura familiar, o processo de êxodo rural é um entrave para o desenvolvimento da agricultura familiar na Bahia.

O meio rural não apresenta atrativos para a permanência desses jovens no campo. Há insatisfação com o rendimento obtido na agricultura, o trabalho agrícola é duro e faltam opções de lazer, cultura, além de não se ter acesso à internet e tecnologia. A consequência disso é o êxodo e o envelhecimento da população rural, também causado pelo aumento da expectativa de vida do brasileiro.

O estudante de Comunicação Social, Ailton Sena, 25 anos, é um dos desses jovens que migraram. Vindo da cidade de Amélia Rodrigues, localizada a 84 Km de Salvador, após passar no vestibular da UFBA, ele nunca se identificou com as atividades do campo e não via perspectivas de futuro ali. Sua família tem um pequeno sítio, no qual criam animais e plantam algumas culturas como mandioca e banana. A produção é para consumo próprio e o excedente é vendido.

“Em Amélia o que restava era trabalhar no campo, Construção Civil ou setor de serviços. Então o jovem que não se identifica tem que ir para a cidade. Alguns voltam, outros não tem essa vontade. Também não há condições estruturais ou empregos que paguem justamente pela qualificação obtida”, conta.

A jornalista Miriane Oliveira, 29 anos, natural da cidade de Ouriçangas, no Centro Norte Baiano, teve sua vida permeada pela atividade rural com a agricultura familiar de subsistência que vem desde a época dos seus avós. Até fez curso técnico em agropecuária e chegou a cursar um semestre de Agronomia na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), em Barreiras, mas sua paixão era mesmo o jornalismo e se formou este ano pela Faculdade de Comunicação da Ufba.

“Assim que eu e meus irmãos completamos a maioridade, saimos em busca de oportunidades, porque a vida na zona rural é bem difícil e por vezes planta-se sem ter a colheita esperada.O trabalho na cidade é atrativo e os salários são melhores”, explica.Ela se orgulha de ser a primeira a ter diploma superior na família e assim poder influenciar positivamente outros parentes e amigos. “Voltar para o campo, só se for pra matar a saudade”.

Segundo o Superintendente de Agricultura Familiar da Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia, Marcelo Matos, o deslocamento do jovem rural pode ser analisado a partir da educação urbana que ele recebe, muitas vezes ocasionada pela dificuldade de acesso à escola. “Quem vive no campo hoje, é que tem uma renda mínima garantida, a maioria aposentados. O Campo está envelhecendo e se não tiver jovens para suceder a Agricultura Familiar, o prognostico não é bom”, afirma.

Já para o Assessor Especial da Secretaria de Agricultura (Seagri), Carlos Armando Barreto, os dados de êxodo rural não preocupam ainda, já que a Bahia ainda possui grande população rural. Ainda de acordo com ele, se chegar o momento em que não tenha mais quem possa suceder a produção da Agricultura Familiar, empresários verão ali oportunidade. “No momento em que o alimento passa ser mais interessante em termos financeiros, o empresário vai querer produzir”, disse.

A estudante de Agronomia da Uneb de Barreiras, Ana Paula Silva, 29 anos, também é de Ouriçangas, mas sempre se identificou com a área. Filha e neta de agricultores, ela teve que migrar em busca de capacitação e oportunidades de emprego. Também fez curso técnico em agropecuária e foi a partir dali que surgiu a vontade de ir além.

“Escolhi o curso por afinidade. Hoje, trabalho com pesquisa na área de fitopatologia, mas minha cidade natal não oferece opções de atuação nessa área, por isso não penso em voltar”.

A motivação para que os jovens rurais permaneçam no campo deve ser feita através políticas de fixação do homem no campo com iniciativas que busquem um processo de melhoria das condições de vida com infraestrutura e valorização da população rural, tais como emprego, educação, lazer, cultura e outros. As escolas agrícolas, nas quais os jovens aprendem práticas de cultivo e utilizam nas propriedades familiares é um bom exemplo.

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