Antes que se apague.

Ele era dois olhos cintilantes, enormes, de uma criança feliz. Com cílios centopéicos que se embaraçavam e se desembaraçavam. Talvez fossem dois beija-flores e nem percebi, do rápido que se assomavam. Do selvagem que passavam por mim.

Era também um corpo moreno e firme que me arrependo de não ter (m)olhado mais.

Da sua boca salivavam palavras encharcadas de cunho sexual que não machucavam. Impressionante o quanto não me machucavam. Impressionante o quanto eu estava curada.

Não tinha assunto que o mantivesse parado. Abria a porta da geladeira. Enrolava o cigarro. Deixava a cerveja balançar por entre todos os seus dedos de uma mão, agora da outra mão. Transitava de um cômodo a outro. E de tanto vê-lo transitar, sentia uma revoada de beija-flores no estômago, como quem lê Saramago no zigue-zague da estrada da serra.

Ele se sentou na privada e me olhava com aqueles dois faróis radiantes enquanto eu escovava os dentes, numa banal missão de controlar o tempo e a espuma. Fácil: cospe, bochecha, cospe de novo. Difícil: fechar a porta e ficar com a confusão.

Disse que de dia se vê melhor a sujeira do carro e eu pensei que talvez de noite poderia contar melhor das cicatrizes que tenho. E disse que não se importava com os carros. Ele se importava com muitas outras coisas que eu jamais entenderia.

E não falemos de cicatrizes. Não é que ele não pudesse entender. É que não haveria noite mais. Ficássemos com a sujeira.

Essa já era a prévia para sentir o vazio de sempre, onde tudo termina em fumaça e perde-se na memória.

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