À Cause de Qui?

Tulio Custódio

Tem um capítulo do BoJack Horseman (segunda ou terceira temporada, não me lembro) que mostra mulheres se armando para combater assédio na ruas.

Diante disso, o universo político e midiático de homens brancos (e é interessante porque, apesar de ser um desenho que retrata humanos e animais convivendo, são “humanos-homens-brancos” que são mostrados ali) tem que tomar uma decisão: lutar contra cultura do assédio ou banir as armas (no caso, em uma sociedade como a norte-americana, que ama armas de fogo).

O resultado é a misoginia: bane-se as armas.

Quando vejo comentários e matérias como a da BBC falando que só “tinha mina branca rica de esquerda” ou a cobertura nula dos meios sobre sábado dia 29 quando ocorreu a Marcha "Mulheres contra Bolsonaro", lembro desse episódio de BoJack.

E lembro também que a misoginia está implicada em uma cultura civilizacional da morte, na qual vidas valem mais e menos que as outras. E, portanto, onde existe misoginia, também existe vidas negras que valem, menos, vidas lgbts que valem menos. Como diz bell hooks, é uma estrutura civilizacional de sociedade patriarcal supremacista branca colonialista imperialista.

Entendo até o ceticismo de alguns (pessimismo político de diversos grupos sobre “que diferença faz um ou outro político estar no poder”), mas diante de um paradigma civilizacional, não acho possível ignorar isso.
Quando a gente fala de estrutura, é sobre tudo isso. O “pau que bate em um” é a concepção de “pau que existe para bater e matar”, aniquilar o outro. Isso a gente, nós negros, sabe porque vivemos, estudamos e denunciamos o genocídio. Não é sobre simetria do pau, ou qual pau mata mais. É sobre estrutura das políticas de morte, ou seja, existir o pau.
E isso é bem “democrático”, ou seja, para “maioria”.

Uma das coisas que me faz escrever esse post não é só porque estava lá sábado, e vi rostos de mulheres e homens negros, de periféricos, de jovens, de velhos. Não é sobre amostragem. É sobre os sinais que alguns homens, nos cruzamentos das esquinas, faziam com a mão, simulando uma arma (alguns gritando “vamo por ordem nessa bagunça”).
Esse gesto é o que me impactou e não significa que eu, homem negro, não saiba que vivo em uma sociedade que está fazendo esse gesto (mesmo quando não está explicitamente) há todo momento para mim e outros homens e mulheres negros. Mas é a crença de que esse gesto e o “pau de bater” não deveria existir como forma de interação, como forma de dar nomeação ao “relacionar ao Outro”.

Mas é isso.

Ah, além do BoJack, veio também esse texto em mente: http://www.ihu.unisinos.br/…/564255-achille-mbembe-a-era-do… . Para pensar junto…

Adendo: https://www.instagram.com/p/BoaFOD8hmDV/?utm_source=ig_share_sheet&igshid=bpb75zdf9n9m

Tulio Custódio

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Sociólogo, Sócio e Curador de Conhecimento na Inesplorato. Mais: about.me/custodta ;)

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