A esquerda festiva que pula corpos

Toda vez que ouço termo “esquerda festiva” (e seus derivativos: cirandeira, rihappy, #maisamorporfavor entre outros), penso que essa definição vai além da festa. Festejar é bom, e acho sinceramente que a vida merece ser (pelo menos tentar) festejada. E por isso não é só essa definição que abrange as críticas sobre esse segmento. Esquerda festiva é aquela que gosta de jogos, mais especificamente o “bingo social”, pois está a todo momento disposta a rifar grupos e segmentos, sempre mais marginalizados. Vamos delimitar esse recorte: estamos falando de um discurso que parte, localizadamente, de uma minoria de classe média, branca e bem educada, com acesso a melhores instrumentos e aparelhos de cultura e educação, que se identifica com um discurso de esquerda (pelo bem comum, com perspectiva de igualdade e solidariedade). Pois bem, até aí, poderíamos falar de aliados — o que muitas e muitos são — que utiliza seus lugares de privilégio e acesso para configurar um discurso, dentro da hegemonia, para atacar as questões e bases da dominação social. Legal.

Mas há uma parte desse segmento que, no afã e inseguranças de posição, prefere (sim, porque isso é uma escolha) utilizar esses mesmos acessos e espaços para construir uma rifa social, e rifar corpos e vivências a partir de sua percepção perimetral do que a realidade convém. Essa rifa costuma colocar na mesma linha do jogo grupos marcados pelo que eles chamam de identitários, como mulheres, negros, população lgbt, imigrantes, e cruza, de maneira absolutamente arbitrária e socialmente insensível, com outros grupos que são seus adversários políticos, como novos movimentos jovens de direita etc. A comparação, feita com grande assimetria, é sempre pela ideia da tática: a suposta agressividade do discurso dos grupos identitários seria comparada a dos grupos de direita, ou seja, ambos usariam o ódio como forma de enfrentamento no debate público.

O problema (nossa…) disso é que se passa uma tábua por cima de conceitos e perspectivas da experiência e pensamento crítico produzido sobre realidade desses mesmo grupos. Quando um indivíduo (geralmente são homens) diz que uma feminista tem discurso de ódio semelhante a um indivíduo protofascista de um grupo de direita, o que ele está fazendo é apagar a realidade e a experiência do que significa ser mulher numa sociedade misógina que a mata e a violenta sexualmente em questão de minutos. Quando se diz que a fala de um militante dos movimentos negros tem a fala de ódio assim como um jovem que defende a volta da ditadura militar, o que se está apagando é a realidade de morte e aniquilação plena de corpos negros, também em questões de minutos num dos países mais racistas da diáspora. Quando se diz que o discurso do movimento lgbt é tão violento quanto o de um grupo da moral e dos bons costumes da direita, está se ignorando a realidade de violência, assassinatos de um país que mais mata homossexuais e transsexuais no mundo. Compara-se história com visão política; compara-se dados e estatísticas com aceitação de discurso.

A realidade que se coloca para essa esquerda festiva, que impunha sua rifa em qualquer contexto que queira participar, é uma realidade no mínimo embasada em seus filtros: filtros de algoritmos mas também filtros de uma realidade imaginativa e limitada, que parece negar todo arcabouço de pensamento e ativismo que a própria esquerda produzida há quase mais de um século. Ignora-se o básico, para não dizer o mínimo, que é a velha máxima popular: “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. E quem são os corpos fracos na estrutura de dominação que vivemos? Quais são os corpos indignos de vida, indignos de luto e valor? Uma cartela de rifa não dá conta de responder isso…

O grande problema da rifa não que ela apenas deturpa e desloca o contexto das origens de discurso e efetiva — ou seja, dinâmica de dominação e impacto que tem cada manifestação -, mas ela é exatamente o que faz com que esse segmento continua ignorando a importância que as pautas de direitos humanos têm para caminhos e soluções a esquerda. O discurso da direita é o discurso que aniquila o Outro, que dinamiza uma visão de mundo hegemônica da desigualdade e produz, como resultado, a aniquilação de pautas, corpos e vidas. O discurso dos segmentos “identitários” são discurso da vida: para existir, para marcar sua existência, seu valor, contra a tendência constante de tornar esses corpos (femininos, negros, trans, e todos os “Outros”) um NADA, um ser NINGUÉM (Nobody, como nos ensinou Marc Lamont Hill).

No meio desse jogo, a esquerda festiva que rifa vidas o que faz? Como disse brilhantemente Djamila Ribeiro, ela pode não ajudar a matar, mas, invariavelmente, pula corpos. Bingo!

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