Descanse em paz, Candido

Não tem como, por ser alguém que passou pela USP e se interessa e foi formado na discussões de e sobre intelectuais, não fazer menção com pesar com o falecimento de Antonio Candido. Algumas das memórias e ideias que fazem parte da minha formação — teóricas e de pontos de vista — passaram pela figura dele.

Como quando descobri seu conceito de rotinização e manifestações literárias, na célebre introdução do Formação da Literatura Brasileira; e foi, no espaço dos primeiros rascunhos para estudar sobre intelectualidade negra brasileira, um importante insight para posteriores avanços em minhas pesquisas.

Quando ouvi pela primeira vez, em uma palestra proferida por ele quando estava nos primeiros anos da graduação, sobre modernidade e a conexão com personalidades clássicas como Hegel, Beethoven e Goethe; aquela ideia de me aprofundar na noção e perspectivas de modernidade, e o impacto que esse “tendenciosidade” teve quando tive contato nos EUA com obra de (talvez o maior de todos) intelectual negro W. E. B. Du Bois.

Ou quando ouvia sobre o modelo de intelectual que Candido era, quase com ares de fofoca, de alguém que aliava a trajetória acadêmica com suas experiências de vida e conectava poeticamente essas coisas. Essa ideia de ser um intelectual não preso às muralhas da torre de marfim, mas ao mesmo tempo valorizando o espaço das instituições públicas de pesquisa, com financiamento, autonomia e excelência que, também acredito, teve relação direta (muitas vezes comparativas, nas minhas próprias limitações de referenciais) sobre quando olhava trajetória de intelectuais negros no Brasil — claro que com muitas problematizações disso acerca de raça, classe etc, mas não é o espaço aqui para tal.

Mesmo fora da academia, como curador de conhecimento na Inesplorato, onde Candido foi uma referência essencial para um grande estudo de uma curadoria temática que realizamos (e continuamos a desenvolver) sobre Culturas Brasileiras. Sua perspicácia teórica e sensibilidade sociológica para falar da Paulistânia e do caipira do Brasil, que nos ensinou a reverter e enxergar valor para além da visão pejorativa que os processos de desenvolvimento do capitalismo periférico (aliados a uma mentalização colonizada) imputavam sobre o termo "caipira". Sem contar sua generosidade para falar e dar referências sobre Brasil, como no famoso artigo que escreveu em 2000 para Revista Teoria e Debate dando 10 referências para conhecer o Brasil.

Em suma, é sempre triste ver uma pessoa de referência partir. Mas, e esse é o outro lado, fica-se o legado e as memórias, seja das palavras, obras ou mesmo insights que aquele pensador lhe proporcionou.

Descanse em paz, Candido.