Falas da Identidade

Tulio Custódio
Aug 23, 2018 · 7 min read

texto originalmente publicado na Bravo! (http://bravo.vc/seasons/s06e03)

A identidade no discurso dos atores sociais das lutas políticas é um marcador que lembra a toda sociedade sobre a diferença que determinados corpos carregam e, por causa delas, os torna alvo de violência.

De: https://www.instagram.com/p/BkIurLkjSAM/?taken-by=princejyesi

Tenho acompanhado nos últimos tempos uma frequência de textos e manifestações acerca dos limites que a “identidade” possuiria para discurso e mobilização políticas. Seja em livros que questionam a razão da vítima, seja em (grandes) textos nacionais ou internacionais que acusam e apontam que a chamadas “pautas identitárias” dividem os setores progressistas. Nessa visão, a identidade seria o cerne problemático das articulações sociais e políticas. E essa percepção e esse discurso tenho chamado de “falas da identidade”.

A meu ver, as “falas da identidade” se aproximam, como uma metáfora de mau gosto, a um conceito, consagrado da sociologia da violência elaborado pela antropóloga Teresa Caldeira, de “falas do crime”. Este conceito remonta a um discurso conservador, mobilizador do afeto do medo e insegurança, como forma de mistificar o passado, e expor os problemas do presente e indeterminações do futuro.

Ora, é muito interessante perceber como que a ideia de identidade dentro dessas “falas da identidade” não apenas aparecem sendo um grande problema-que-mascara-problemas-reais, quanto os reprodutores desse discurso são de perfis muito parecidos: homens, brancos, de setores progressistas, com espaços e possibilidades em diversos meios.

Vale perceber que as “falas do crime” são a interface progressista do discurso reacionário “mundo-está-chato”, proferido por, em sua maioria, homens, brancos, de altas classes, de setores mais conservadores. São duas interfaces de uma mesma moeda: do discurso universalista de uma história única, em que um perfil e uma história falam por todas as outras, no qual uma voz implica e dá o tom da existência de todas as outras.

Na verdade, é uma moeda que não percebe o essencial: a identidade no discurso dos atores sociais das lutas e mobilização políticas é um marcador que lembra a toda sociedade sobre a diferença, a diferença que determinados corpos carregam e, como que de maneira naturalizada, essa diferença implica em problemas e experiências concretas de violência e desrespeito.

Bem, mas qual é o problema de fato acerca da ideia de identidade mobilizada pelas “falas da identidade”? Acredito serem dois os problemas: 1) noção de “identidade” vinculada como um marcador de desencaixe, desajuste a um pretenso ideal de universal; e 2) a noção de “identidade” como um adjetivo e não um predicado.

De: https://www.instagram.com/p/BiU11clFNpO/?taken-by=nana.kwasi.wiafe

Obtuso universal

É evidente que poderíamos resolver esse problema do discurso das “falas da identidade” se olharmos, como os grupos que demarcam identidade como marcadores sociais da diferença, para perspectiva estrutural, sistêmica. Isso significa entender que “identidade”, na verdade, não fala sobre particular ou o residual, e sim sobre como a noção estrutural de identidade é usado para demarcar grupos que são sujeitos a violência, degradação e vitimização constante.

Parto aqui, a partir do meu espaço de experiência, da questão racial por exemplo. O marcador raça não é sobre especificidade complementar, e sim sobre como estruturalmente corpos que carregam a marca de serem negros, por exemplo, são alvo da violência imputada pelo Estado e instituições da sociedade, sempre em vista de uma experiência ampla de discriminação, violência e aniquilação. O olhar estrutural é o olhar que está nos grupos e sujeitos que lutam contra o racismo.

Já o olhar das “falas da identidade” é um olhar que se pretende estrutural, mas é de uma particularidade obtusa. Sua obtusidade se dá porque acredita que apenas por mobilizar uma pretensa ideia de “universal”, se refere ao todo, ao sistema. Dessa maneira, a noção de identidade dentro das “falas da identidade” diz sobre elementos que descaracterizam o universal, ou seja, denotam um mal-estar desses sujeitos-universais diante de elementos que mostram um desencaixe com o “normal”, com o “padrão”. Para eles a identidade soa uma como moeda do desagravo.

A noção de identidade, em muitas das abordagens feita por pensadores-intelectuais-consagrados, diletantes ou cheerleader progressistas, é tida como elemento que tira do normal. Ou seja, os “portadores de identidade” estariam em apartados do comum, do universal — estas que, nada mais (ou menos) são do que categorias esvaziadas neste discurso dominante que tenta diluir instâncias e marcações de poder e hierarquias acerca de vidas que valem mais do que outras. Identidade tem lugar de marcar o estranho, o torto, o desviante. E sabemos que isso é face de como uma estrutura fundamentada no racismo funciona.

Nesse sentido, identidade é a marca que destrói com a ilusão do “todo mundo”, e caracteriza a impossibilidade destes interlocutores de continuarem veiculando sua versão dos fatos como a versão única e oficial. Na verdade, a identidade ali é empregada para marcar um lugar de desencaixe, de outridade em relação a uma situação que estaria ou seria normal. Sim, porque todos os problemas, no discurso das “falas de identidade” parecem ter começado quando os negros e todo mundo “diferente” começou a falar sobre si e seus problemas. De alguma maneira, parece que as tais “demandas baseadas em identidades”, ou as batizadas como “pautas identitárias” são a origem de todo mal.

O que os detentores das “falas da identidade” não percebem é que a própria ideia de universal é construída sob égide de um lugar histórico de desigualdade e imposição histórica de poder cultural, econômica e social do colonialismo. O colonialismo, que determina junto com a escravidão e o imperialismo, é o autor da história única, do herói único; logo, o universal nada mais é do que uma face marcada e datada de um lugar que tem uma marcação muito específica: de um lugar de poder. Portanto, é exatamente a imagem contrária da aparência discursiva: ao contrário do que parece fazer acreditar as “falas da identidade”, o universal é o particular, o específico, enquanto que as identidades permitem perceber o sistêmico, o estrutural.

De: https://www.instagram.com/p/BjxgkDpFwaa/?taken-by=nana.kwasi.wiafe

Sujeito e predicado

Outro problema da noção de identidade dentro das “falas da identidade” é o estado de adjetivo que essa ideia assume ali. A ideia de identidades como adjetivo a coloca como uma espécie de “sujeira” na imagem preconcebida pelos sistemas coloniais. Sim, porque o que está aí é uma imagem, um simulacro distorcido do que é. E essa distorção é percebida em sua inconsistência e “pureza” quando ideia de identidade entra em cena.

Mas não nos enganemos: a identidade é fruto dessa própria distorção, que dá sentido e determinação a uma consciência-outra que está marcada na cor, na etnia, no gênero, no sexo. Jeitos de fazer o outro. A identidade está na estrutura, e sua legitimidade está no fato que não conseguirmos operar para além de seu simulacro, da imagem criada. O todo se torna uma parte, um “detalhe” instrumentalizável e operacional como a própria estrutura marcada pela oposição diferenciante e hierárquica, assim como a mercantilização de todas as esferas, que faz acharmos que “identidade”, é mais um item mensurável ou add-on complementar. Um adjetivo.

Identidade, essencialmente é predicado. Neste lugar marca como estruturalmente a vida de sujeitos é constituída. Ser predicado é ser aquilo que se diz sobre o sujeito, aquilo que o determina. É sobre aquilo que se atribui. Termo que se atribui ao sujeito de uma proposição, por meio de uma afirmação ou negação. Logo, identidade deve ser entendida nesse espectro de estatuto de sujeitos.

A marca racial, para ficarmos nessa questão, é uma marca que estrutura uma determinação da constituição dos sujeitos negros. Ser negro é um predicado, uma implicação de uma série de determinações estabelecidas nos sistemas pautados no colonialismo, que designam impotência, subalternidade, subumanidade e vulnerabilidade à violência. O problema do discurso das “falas de identidade” é que elas entendem a identidade como um adjetivo, que altera um estado contextual — e não sistêmico, estrutural — e não seria responsável pela determinação constante das vidas negras que carregam aquela marca. Ser negro não é um adjetivo: adjetivo é mutável, é retirável. A identidade negra marca toda a experiência do sujeito negro, independente de ele ser ciente dessa determinação ou não.

Qual a consequência desses dois problemas que carregam a noção de identidade dentro do discurso das “falas da identidade”? São muitas, mas poderíamos resumir aqui em duas, com graves manifestações para as vidas afetadas por esse discurso.

Primeiramente, pelo contínuo apagamento da representação negra, em nome do ideal limitado e castrador do universal. Falar sobre raça e identidade dentro de uma ordem estrutural racista é falar sobre a raiz sistêmica do problema, e mostrar como a partir dela, pode se articular um “real-universal”, a partir do momento que seja possível desintegrar o estatuto negativo de determinação que a identidade raça possui para constituição dos sujeitos negros. Portanto, seguir apagando essa representação é seguir ignorando as estruturas, ou seja, reproduzindo as políticas da morte e do enquadramento de vidas precárias. Como disse acima, nesse sentido o discurso das “falas de identidade” é outra face da mesma moeda do “mundo-tá-chato”.

A segunda consequência é que seguir lendo identidade como adjetivo é garantia da reprodução de uma política da morte e não uma política da vida. Descaracterizar esse lugar da identidade como predicado e suas implicações para as vidas negras, é descaracterizar a mudança sistêmica, radical da sociedade. As “falas de identidade”, nesse sentido, não temem a morte e sim a aprofundam; não temem a desigualdade e sim a financiam social, política e intelectualmente.

A maior lição que esse debate nos traz é que quem quer falar por todos na verdade fala de si. E, nesse caso, em pleno descaso com a vida dos Outros. No fim, é sobre cada um por si e o Universal por todos. Tudo farinha de um saco só. Um saco, só.

Tulio Custódio

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Sociólogo, Sócio e Curador de Conhecimento na Inesplorato. Mais: about.me/custodta ;)

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