Rewind, medos e recorrências de morte

Tulio Custódio
May 17, 2018 · 2 min read

Pensamentos e reflexões sobre FEAR.

O movimento de no início da música colocar no “rewind” as palavras que designam caracterização histórica da vida negra. Depois de ler Achille Mbembe , pensei na força e potência de representação imagética na música, e aí, toda a construção sobre medos presente ali. É tão absurdamente fantástico… Kendrick Lamar, que obra.

Por que rewind é tão impactante?

Porque ele mostra circularidade das coisas, um movimento de enquadramentos fixos que sujeitam a experiência negra à razão negra, ou, para entender mais explícito disso, a uma realidade chapada, atribuída de fora e figurativa (coadjuvação) de uma existência que a todo momento pode ser retirada.

Circularidade no rewind, de uma música que continua tocando com letras parecidas, escritas na razão de quem quer ter razão da história, e ressoa a mesma estrofe. Diz que é inaugural da liberdade, uma ode a alegria. Rimas e versos de morte, de aniquilação. De quê ou de quem? Quem é?

Rewind na História dos tiros que mataram Martin Luther King, ou do sacode contra Steve Biko. Rewind de versos que são sonoros ainda hoje, Marielle.

Rewind na História do apagamento de intelectuais negros. Guerreiro Ramos que não viu sol da Universidade do Brasil brilhar para ele. A recusa de ouvir o negro como potência, como razão. Processos contemporâneos, rewind. Racismos nas instituições, Matheus.

Rewind é importante pq é a condição, o enquadramento. É sobre tudo que precisamos superar para se desvincular dessa música com uma gramática da nossa morte. Ou melhor, mortes. De corpo, espírito, episteme, reconhecimento.

Aí volto para música. No fundo, Lamar fala do Fear (medo) que acompanha e conjuga, pondera e dá lastro para um modo de viver, de se relacionar com a vida. “Life’s a bitch” é medo. Não ter negro na novela é medo. Tiro, execução, é medo. Não reconhecimento e reprovação em concursos públicos é medo. Nossa raiva e sentimento de injustiça e frustração diante de tudo isso é medo.

“What happens on Earth stays on Earth”, e tá no rewind. Não estamos mais batendo palmas para essa música.

Tulio Custódio

Written by

Sociólogo, Sócio e Curador de Conhecimento na Inesplorato. Mais: about.me/custodta ;)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade