
Invejinha — Quem Nunca?
Recentemente, depois de uma imersão no mundo das mídias sociais brasileiras, eu cheguei a conclusão de que o brasileiro é o povo mais invejado do planeta. Não tem outra explicação. Até para quem não se considera invejoso existe a inveja branca. Eu nunca vi tanta conversa sobre falsete, beijinhos no ombro, recalque, sal grosso e olho gordo. Eita povo que gosta de sambar na cara das inimigas ou “dazinimigas” — porque a língua portuguesa, obviamente, também virou uma adversária.
Mas não é que faz sentido. Afinal, somos um país de primeiro mundo, com saúde pública e educação que são motivos de orgulho nacional. Não? Não é por isso que somos invejados. É por muito menos: um carro novo, uma festa de casamento, amizades, corpitcho em forma, emprego, férias. Claro que a inveja não é singular do brasileiro, mas eles tendem a vocalizar as suas frustrações com frequência.
Desde que a mundo virtual se tornou grande parte de nossas vidas, um dos efeitos colaterais mais contraditórios é que o sorriso dos outros estampado nas nossas timelines, ao invés de despertar alegria, incomoda. Freud não explica, mas outros estudiosos do comportamento humano tentam entender. Em 2013, a Dr. Hanna Krasnova da Humboldt-Universität na Alemanha conduziu um estudo sobre os sentimentos nas mídias sociais de 600 adultos. Cerca de um terço dos participantes disseram que experienciaram sentimentos negativos como frustração. Os pesquisadores descobriram que a principal causa desta frustração é a inveja. De acordo com o estudo, na internet, temos acesso a informações sem precedentes sobre os outros. Em um mundo sem mídia social, só estaríamos sujeitos as tentadoras imagens de férias dos nossos conhecidos se eles fossem amigos íntimos e as fotos e outras informações fossem compartilhadas durante um encontro, um café da tarde. Nestes casos, a riqueza da comunicação interpessoal provavelmente ofuscaria os sentimentos de ciúme.
O Facebook é vendido como uma ferramenta que conecta as pessoas ao redor do mundo e realmente este é um dos seus intuitos mais pertinentes. Porém, quem assistiu o filme A Rede Social sabe que no inicio a intenção era outra. Em sua primeira encarnação, o Facemash, o único propósito da plataforma era comparar as alunos da Universidade de Harvard através de fotos e escolher quem era mais atraente. O Facebook sempre foi, entre outras coisas, um terreno fértil para a inveja e a hostilidade um de seus principais ingredientes.
Portanto é fácil de entender a decisão de quem hesita em compartilhar suas vidas com os outros online como também é necessário respeitar aqueles que decidem fazer o oposto. Quem mora longe, antigamente, tinha que revelar o filme, colocar as fotos em um envelope, enviá-las e esperar em torno de um mês para que elas e suas mensagens chegassem nas mãos de familiares e amigos. Hoje, o processo é quase instantâneo graças às mídias sócias e outras tecnologias.
Existe todo o tipo de pessoa nas redes, inclusive os invejosos de plantão e poucos que genuinamente se importam com a felicidade dos outros. Para navegar este território de águas turbulentas é importante usar um bom filtro. Não o Valencia ou o solar, mas o senso comum. E se este falhar, é sempre bom ter um santo forte tipo o São Jorge, aquele de popularidade digna de causar inveja em outros santos.
Independente das crenças, quando o assunto é invejinha, eu aprendi uma lição que vale para a vida online e offline: não confie muito naqueles que querem o que tu tens. Eu não confiaria em mim mesma perto de um pote de Nutella. Não são só as formigas que estão de olho nele, né “miga”?