Desigualdade de gênero: Uma visão além da superfície

Aviso: Esse texto é somente uma versão compactada e adaptada de outro texto já postado aqui sob o título de “Sobre o machismo, o racismo e o identitarismo”, feita no intuito de colaborar com um projeto extraescolar cujo tema semanal era a desigualdade de gênero. Tanto a introdução quanto a parte sobre o machismo e a origem do patriarcado foram transcritas do outro texto, sendo, portanto, original apenas as informações sobre a situação da mulher na sociedade atual.

Quando falamos sobre o machismo e desigualdade de gênero, é importante que façamos uma análise materialista de sua origem, considerando a totalidade da sociedade e como a realidade material ocasionou seu surgimento, ou seja, admitir que esses não existem em si mesmos, mas sim têm uma conjuntura que levou a sua decorrência com o intuito de manter a infraestrutura de determinado sistema.

Para isso, é também fundamental que entendamos os conceitos de infraestrutura e superestrutura para que possamos corretamente entender como uma afeta a outra.

A infraestrutura, ou seja, as forças de produção (matéria-prima, meios de produção e trabalhadores) e relações de produção (empregado-patrão), i.e., base material de uma sociedade, dá forma a superestrutura, que compreende as ideias e costumes (da classe dominante), as instituições, as relações sociais e políticas, etc. Essa relação não é unilateral, portanto, a superestrutura, além de servir para manter a infraestrutura, a altera em algum nível, não obstante, continua sendo muito mais afetada por essa do que efetivamente a afeta.

Machismo:

Como dito anteriormente, o machismo não existe em si mesmo, como às vezes é afirmado por pessoas que fazem uma análise determinista da sociedade, mas sim faz parte de uma totalidade. O machismo não surgiu voluntariamente ou a desigualdade de gênero sempre existiu, tampouco o homem nasce machista. O primeiro é fruto do patriarcado, que constitui parte da infraestrutura da sociedade, e o segundo é decorrente da superestrutura da sociedade (parte onde o machismo está compreendido) na qual este homem está inserido, com seus valores e ideologias refletindo na ação e ideais dos indivíduos que dela fazem parte.

A origem do patriarcado e da desigualdade de gênero:

Resumidamente, com a origem de um excedente de produção, houve a origem da propriedade privada e da necessidade de passar essa para herdeiros; dessa necessidade veio um novo modelo de família, que consistia na monogamia feminina como forma de garantir que os filhos desta mulher fossem do marido, i.e., há então a patrilinearidade e a mudança do direito materno para o direito paterno. [1]

Também, devido a mudança do sistema de caça e coleta para agricultura e criação de gado, o homem agora era responsável por suprir a maior parte da demanda por alimentos e, devido a maior disponibilidade desses, houve um aumento na taxa de natalidade, com as mulheres passando a dedicar mais tempo à maternidade, ficando reduzidas ao âmbito privado e à reprodução. [2]

Há, então, o surgimento da divisão sexual do trabalho ligada à hierarquização dos papéis de gênero. Enquanto anteriormente o homem e a mulher, mesmo que eventualmente executando funções diferentes, possuíam igual importância para a sociedade, agora essa relação ocorre de forma desigual, com um dos lados sendo subjugado ao outro e a mulher sendo vista agora como propriedade, capaz de gerar mão de obra. [3]

Podemos assim concluir que a mulher sofreu uma exploração econômica sobre seu sexo e atualmente sofre uma opressão que deriva de uma diferença social histórica entre os sexos, que se apresenta nos valores e costumes de nossa sociedade, que, como explicado acima, compõem a superestrutura.

Apesar disso tudo ter acontecido há muito tempo, a realidade atual da mulher não mudou qualitativamente e ainda reflete diretamente a estrutura de nossa sociedade, ou seja, a mulher continua ganhando menos que o homem [4] e, portanto, continua ocupando uma posição de subjugação de viés econômico. [5]

Além disso, com a inclusão dessa mulher no mercado de trabalho há o surgimento da dupla jornada feminina, que consiste na execução das tarefas de caráter privado e doméstico (cuidar do lar, dos filhos e do marido), além do trabalho fora de casa, o que faz com que essa mulher trabalhe em média 7,5 horas a mais que os homens por semana. [6]

Essa diferença salarial e também de funções, com as mulheres ainda ocupando cargos menos importantes ou considerados caracteristicamente femininos, como os de empregada doméstica, não vai se cessar sem uma mudança efetiva na sociedade, pois serve a lógica exploradora do mercado, que visa seu lucro em cima dessas realidades desiguais. [7]

Outro ponto no qual fica fácil de se observar isso é em como o fato da mulher ser vista como propriedade — junto da desigualdade social existente na sociedade como um todo — favoreceu o surgimento de “profissões” que a transformam diretamente em mercadoria, como a prostituição e a indústria do sexo no geral.

Em suma, o caminho para que a igualdade de gênero seja alcançada de forma efetiva ainda é longo e demanda uma mudança severa na sociedade, não só em sua superestrutura, mas sim em sua infraestrutura e sistema vigente.

Notas:

[1]: ENGELS, F. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder. 9ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. (p.82)

“A monogamia nasceu da concentração de grandes riquezas nas mesmas mãos – as de um homem – e do desejo de transmitir essas riquezas, por herança, aos filhos deste homem, excluídos os filhos de qualquer outro. Para isso era necessária a monogamia da mulher, mas não a do homem; tanto assim que a monogamia daquela não constituiu o menor empecilho à poligamia, oculta ou descarada, deste.”

[2]: ENGELS, F. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder. 9ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. (p. 59)

“Dessa forma, pois, as riquezas, à medida que iam aumentando, davam, por um lado, ao homem uma posição mais importante que a da mulher na família, e, por outro lado, faziam com que nascesse nele a idéia de valer-se desta vantagem para modificar, em proveito de seus filhos, a ordem da herança estabelecida. Mas isso não se poderia fazer enquanto permanecesse vigente a filiação segundo o direito materno. Esse direito teria que ser abolido, e o foi. […] Assim, foram abolidos a filiação feminina e o direito hereditário materno, sendo substituídos pela filiação masculina e o direito hereditário paterno.”

[3]: ENGELS, F. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder. 9ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. (p. 61)

“O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução. Essa baixa condição da mulher, manifestada sobretudo entre os gregos dos tempos heróicos e, ainda mais, entre os dos tempos clàssicos, tem sido gradualmente retocada, dissimulada e, em certos lugares, até revestida de formas de maior suavidade, mas de maneira alguma suprimida.”

[4]: https://www.google.com.br/amp/s/g1.globo.com/google/amp/https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/mulheres-ganham-menos-do-que-os-homens-em-todos-os-cargos-diz-pesquisa.ghtml

http://www.observatoriodegenero.gov.br/menu/noticias/homens-recebem-salarios-30-maiores-que-as-mulheres-no-brasil/

[5]: SAFFIOTI, H. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (p. 107)

“O importante é reter que a base material do patriarcado não foi destruída, não obstante os avanços femininos, quer na área profissional, quer na representação no parlamento brasileiro e demais postos eletivos políticos. […] Acrescente-se o tradicional menor acesso das mulheres à educação adequada e à obtenção de um posto de trabalho prestigioso e bem remunerado. Este fenômeno marginalizou-as de muitas posições no mercado de trabalho.”

[6]: https://www.google.com.br/amp/agenciabrasil.ebc.com.br/amphtml/geral/noticia/2017-03/mulheres-trabalham-75-horas-mais-que-homens-devido-dupla-jornada

https://www.google.com.br/amp/s/oglobo.globo.com/economia/jornada-de-trabalho-feminina-tem-75-horas-mais-do-que-masculina-21019512%3fversao=amp

[7]: SAFFIOTI, H. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (p. 129)

“É óbvio que este fato preexistiu, de longe, à emergência do capitalismo; mas este se apropriou desta desvantagem feminina, procedendo com todas as demais da mesma forma. […] Isto equivale a dizer que, quanto mais sofisticado o método de exploração praticado pelo capital, mais profundamente se vale da dominação de gênero de que as mulheres já eram, e continuam sendo, vítimas. […] Não há, de um lado a dominação patriarcal e, de outro, a exploração capitalista. Para começar, não existe um processo de dominação separado de outro outro de exploração. […] De rigor, não há dois processos, mas duas faces de um mesmo processo.”
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