Sobre o Uisli e o que ele me ensinou sobre cidadania.

Uisli é um haitiano de 26 anos que chegou ao Brasil 8 meses atrás, e que muito provavelmente não tem a menor noção de quantas reflexões provocou em mim desde nosso breve contato há menos de 48 horas atrás.

Uisli sentou-se perante cerca de 10 alunos de mestrado internacional em administração pública para contar a sua história, a história de um haitiano graduado em biomedicina, que sonhando com uma vida impossível em seu próprio país, veio buscar uma oportunidade de evoluir em terras brasileiras; viveu cerca de 6 meses em uma casa de acolhimento no centro de São Paulo, aonde hoje trabalha dando assistência há outros tantos imigrantes e refugiados que chegam todos os dias, quando chegou ao Brasil, mesmo sem falar nada em português, começou atrabalhar como pedreiro, limpador, entre outras coisas, fez de tudo um pouco, como ele mesmo diz… Sua história por si só, ja chama atenção e causa algumas inquietudes, mas foi uma resposta específica que me fez permanecer com a sua vóz em minha cabeça; em um dado momento, ele foi perguntado sobre discriminação, e a resposta foi, para mim ao menos, franca, direta e cortante:

“Nunca sofri preconceito direto, mas sempre que acontece algo com algum haitiano, também é comigo você entende? Semana passada mataram 3 haitianos aqui pertinho, na liberdade, eu não estava lá, mas eu sinto também.”

Essa resposta significou tanto pra mim, que segurei o choro, respirei, continuei firme e forte na entrevista, mas comecei a sentir uma certa inquietude com relação a mim, meu papel como cidadã e o congelamento patriótico que temos vivido.

Congelamento patriótico sim, porque falar de política sem ao menos investigar o que acontece, é ser um porta-vóz da informação alheia; porque se comover com Paris ( que sim foi digna de comoção e orações) mas não saber nem ao certo o que aconteceu em Mariana, quais os perígos e impactos que a tragédia teve e ainda terá na vida de milhões de brasileiros; saber que todos os dias kilometros de área “preservada” da Amazônia são devastados e simplesmente não olharmos para isso; é um dos maiores tipos de hipocrisia que podemos praticar.

Quando foi que deixamos de ser uma nação? Quando foi que passamos a olhar tanto para nossas tragédias internas e terceirizar a responsabilidade sobre algo que realmente podemos ajudar a mudar?! Quando foi que deixamos de ter o sentimento que o Uisli sente com relação aos haitianos, seja onde estiverem?!

Estamos vivênciando um momento histórico em nosso país em diferentes formas e intensiades, e não importando de que lado você esta, ainda assim você é parte disto, e sendo parte, é preciso se posicionar como cidadão; é preciso falar sobre Mariana, é preciso falar sobre o impeachment, é preciso falar sobre política, é preciso falar sobre violência, mas acima de tudo, é preciso agir, e agir em prol de algo maior que nós mesmos, é preciso agir em prol de uma nação e da humanidade em si.

Obrigada Uisli!

C.O.