Quando Devo Procurar Aconselhamento Pastoral?

Por José Valdeci Monteiro

O Aconselhamento pastoral é uma atividade relacionada ao ministério pessoal. Alguns crentes até concordam que ele se trata de um importante ministério na vida da igreja, porém, outros ficam em dúvida quanto a “quando se deve procurar aconselhamento pastoral? ”

Uma das razões pelas quais há bastante hesitação dos crentes na procura do aconselhamento pastoral é o desconhecimento do seu processo. Os crentes concordam com sua importância, sabem que se trata de um exercício bíblico, porém, temem estar diante de alguém com quem terão que revelar coisas particulares e intimas. Elas não se sentem à vontade e nem estão preparadas para isso.

Outra razão capaz de provocar hesitação na procura do aconselhamento pastoral é o desconhecimento de seu propósito. Pensa-se que ir ao aconselhamento pastoral, dependendo do caso, é sair de lá sumariamente disciplinado. Infelizmente, tem sido assim em algumas igrejas! Esse modus operandi demonstra o desconhecimento entre conselheiros, aqueles que precisavam estar conduzindo os crentes a Cristo, e aconselhados, aqueles que deveriam ter confiança no processo e na finalidade, e deveriam ser ensinados quanto ao real propósito do aconselhamento pastoral.

Por este motivo, poucos são aqueles que estão desfrutando das reais benesses providas por Cristo na continuação de sua obra e na instrumentalidade de seus servos, que servindo uns aos outros, por meio do ministério pessoal do aconselhamento, estão edificando a igreja segundo o propósito de Deus em fazê-la crescer alcançando a estatura e varonilidade de Seu Filho.

Tendo em vista essas questões, vê-se que, para se saber a hora certa de procurar aconselhamento pastoral é preciso conhecer o seu propósito através do arcabouço bíblico histórico redentivo. Sendo assim, apresento abaixo alguns propósitos do aconselhamento pastoral extraídos de livros escritos por proeminentes estudiosos da área:

“Como servos dele (Jesus), somos chamados para mediar sua graça — não em sentido sacerdotal, mas como embaixadores da reconciliação”¹.

“Pôr em ordem o indivíduo mediante a mudança de seus esquemas de conduta, de modo que estes se enquadrem nos padrões bíblicos”².

“Ministrar as Escrituras àqueles que enfrentam problemas ou desejam a sabedoria e a orientação de Deus”³.

Dentre todos eles, o último propósito se mostra como aquele que se aproxima mais da realidade prática de quem busca motivos para procurar o aconselhamento pastoral.

Todavia, é preciso ressaltar que, a necessidade do homem em receber conselhos está presente desde sua criação. No Éden, Adão recebeu conselhos para viver e se relacionar com outros, com seu meio e consigo mesmo (Gn 1. 28–30; 2. 15 -17). Ocorre que o homem só passou a evitar contato com seu conselheiro após a queda. Costumeiramente Deus passava à tardinha para aconselhar o casal. Mas, após pecar, Adão e sua esposa se esconderam, não querendo mais receber conselhos da parte de Deus (Gn 3.8).

Isso deixa patente a necessidade inerente que os homens possuem de serem aconselhados. Eles foram criados com esta necessidade. Ela está em sua essência, tornando-se mais acentuada após a queda. Consequentemente, alguns crentes procuram por aconselhamento pastoral quando algum conflito, interno ou externo, se estabeleceu trazendo à sua vida sofrimento, angustias, dúvidas e falta de paz. Evidentemente, os conflitos são inúmeros, como inúmeras são as desculpas que usamos para não procurarmos aconselhamento pastoral. Contudo, alguns conflitos devem levar o crente a procurar o seu pastor, a fim de tomar conselhos e buscarem soluções bíblicas para eles.

Um dos conflitos que deve levar o crente a procurar por aconselhamento pastoral é a culpa. A culpa é um elemento interessante, porque, na mesma medida em que ela faz alguém precisar de aconselhamento (Os 5.15), também pode fazer a pessoa se afastar de procurar o aconselhamento, levando-a a uma tristeza imensurável e um desprezo por aquilo que antes era importante (Sl 31. 9 -10).

Contudo, faz-se necessário averiguar se a culpa é proveniente de um pecado cometido objetivamente e, até, escravizadoramente; ou, na verdade, é proveniente da falta de conhecimento sobre o pecado cometido (Sl 90.8), ou até, da falta de sabedoria ou da ignorância em lidar com algo (I Co7.5; 15. 34).

Neste sentido, a ignorância pode ter como resultado a má utilização de algo permitido pela palavra de Deus (I Co 8. 7–8), como também, movida pelo autoengano, pode resultar em pensamentos e julgamentos pecaminosos e desmedidos, em discernimento estulto e maquinações exageradas, contra si mesmo ou contra outros (Pv 14.8; 19.3; 22. 15). Isso é possível porquê o coração do homem é fonte dos seus pensamentos, propósitos e intenções (Pv 4.23), e tem condições de fazer interpretar, a si mesmo e até aos outros, que nossos julgamentos e decisões são sempre oriundos da certeza, da justiça e da retidão (Mt 15.19). Porém, a Escritura nos demonstra a verdadeira face de nosso coração, ela diz que nosso coração é enganoso e desesperadamente corrupto (Jr 17.9).

Por isso, o crente deve estar atento quanto ao surgimento de falta de disposição sobre as coisas espirituais e a tristeza súbita, geralmente provenientes da culpa gerada pelo autoengano. Quando isto acontece o crente deve procurar o aconselhamento pastoral. Pois, o conselheiro terá como premissa sondar o coração do indivíduo a fim de averiguar os motivos bases pelos quais essa falta de disposição e essa tristeza se estabeleceram em seu coração. E, encontrando nele julgamentos injustos, afeições desprovidas de piedade, propósitos infiéis a Deus e ações ímpias, o conselheiro os corrigirá à luz da palavra de Deus, para que ele (o coração) venha a funcionar bem e corretamente (Sl 119.9; 11).

Também é possível procurar o aconselhamento pastoral em busca de confessar pecado. Ou seja, este é um momento a posteriori ao que tratamos acima sobre a culpa. Pois este se dá quando a culpa já foi identificada e sua origem pecaminosa descoberta. Apesar de não existir nenhuma prerrogativa bíblica para que o pastor assuma uma posição vicária, colocando-o acima dos demais membros do corpo, como é o caso dos sacerdotes católicos-romanos. Por esta causa, não entendemos como eles até possuem um local específico para isto ser feito. Pelo contrário, a Bíblia nos diz que devemos admoestar-nos uns aos outros, sem especificar alguém com esta função (Col 3.16).

O correto, biblicamente falando, é que o pecado seja confessado diretamente ao ofendido e que o mesmo esteja pronto para perdoar o seu ofensor. O confessar pressupõe verdadeiro arrependimento, logo só há perdão se houver arrependimento (Sl 32.5; I Jo 1.9).

Outra razão que deve levar alguém a procurar aconselhamento pastoral é o sentimento do medo. O medo é um problema comum que pode evoluir para uma depressão ou uma síndrome, se não for cuidado a tempo.

Ele pode ter origem num problema existente na relação com quem se partilha um dever ou um compromisso (Dn 1.10); ou mesmo, no ato de enfrentamento sobre questões, eventos ou decisões extremamente importantes para a vida.

Um casal, que se prepara para o enlace matrimonial, deve procurar o aconselhamento pastoral com a finalidade de conhecerem seus deveres um para com o outro. Se fortalecerem, no tocante a descobrirem suas fraquezas e conhecerem as ações que melhor servirão ao outro, na ocasião de se ajudarem mutuamente no processo de santificação e na vida a dois, com o propósito de glorificarem a Deus nesta relação por toda a vida, cada um tendo o seu caráter conformado a imagem de Cristo.

Porém, como sintoma, o medo é capaz de fazer o indivíduo tomar outro rumo que não o ideal para aquele momento ou para aquela questão. O indivíduo foge as suas responsabilidades e aos seus papeis, deixando de desempenhá-los e causando baixa autoestima em si mesmo. Mas, como sintoma mais grave, o medo é capaz de paralisar o indivíduo, arrastando-o para confusão e atrofia mental (Lc 19. 11–24). Por isso, deve-se buscar o aconselhamento, a fim de que a pessoa seja encorajada e capacitada a enfrentar este mal, e, sobretudo, seja capaz de tomar a decisão corretamente por ter um coração fortalecido e que glorifica a Deus.

Ainda, outro motivo pelo qual se deve procurar o aconselhamento pastoral é quando alguém entrou em colapso (termo usado por Jay Adams). Essa pessoa é aquela que está a passar por crises extremas ou de reincidência, como a quebra de um negócio, a nova traição do cônjuge, o retorno de um diagnóstico médico, a morte de um ente querido, a mudança drástica de uma igreja, situação de perseguição e acusações infundadas, queda no vício e etc. Pessoas colapsadas perderam completamente sua esperança e precisam voltar a acreditar que apenas a mensagem do evangelho do Senhor Jesus Cristo é poderosa o suficiente para inflamar novamente seus corações com a esperança da glória. É preciso que o conselheiro ajude a retirar o foco do colapsado do campo material fazendo olhar para a eternidade, e, por assim dizer, para as promessas de Deus reservadas para seus filhos.

E, por último, mas, não menos importante, a falta de convicção quanto ao sentido da vida também é motivo para se buscar o aconselhamento pastoral. Não é incomum as pessoas passarem por este tipo de crise, pois, o coração necessita de respostas e de convicções as quais este mundo, mergulhado na profundidade do relativismo, não é capaz de lhe dar.

Por isso, o aspecto transcendental, próprio da alma humana, só será satisfeito a partir de convicções e esclarecimentos dotados de verdades eternas. O aconselhamento pastoral tem como um de seus fundamentos, justamente, a apresentação de uma cosmovisão (visão de mundo) que tem como consideração a história da redenção (criação, queda, redenção e consumação). Em outras palavras, essa cosmovisão possui começo, meio e fim e sua lógica inclui a restauração de todas as coisas afetadas pela queda, inclusive o homem em sua totalidade, sendo redirecionado a sua finalidade última: a glória de Deus e a plena alegria no seu Criador.

Procurar aconselhamento pastoral não se trata de um evento do qual devemos sentir vergonha de nós, mas trata-se de procurar o caminho apontado pelo próprio Cristo com vistas ao aperfeiçoamento daqueles que foram escolhidos para estarem com Ele na eternidade.

[1] POIRIER, Alfred. O Pastor Pacificador, pág. 193.

[2] ADAMS, Jay. O Conselheiro Capaz, Ed. Fiel, pág. 56.

[3] BABLER, John; ELLEN, Nicolas. Fundamentos Teológicos do Aconselhamento Bíblico e Suas Aplicações Práticas, Ed. Nutra, pág. 89.