Legado de Cinzas e Ruínas e Pó

Sol escaldante, Domingão, crianças correndo, animais sendo contemplados, natureza, um Museu cercado por este cenário, aberto a visitação, em um pequeno raio de distância, residências, outras instituições e até o Centro de Tradições Nordestinas, outro local de passeio em São Cristóvão estava efervescente.
Hoje o Museu Nacional Bicentenário se traduz em cinzas, ruína e pó.
Os Jardins Suspensos da Babilônia, atual Iraque, em sua plenitude remontam às ilustrações daqueles livros de evangelização dos Testemunhas de Jeová, eu li tanto cada história e via cada imagem como algo tão belo… agora melhore isso zilhões de vezes, esses foram os Jardins Babilônicos…
As Pirâmides Egípcias sendo construídas com exploração da força de trabalho humana: física e escrava em detrimento de uma exploração intelectual cuja herança se estuda até hoje. A exploração e escravidão foram aprimoradas com o tempo, afinal, somos escravos do nosso tempo.
Voltemos às Pirâmides: Não à toa retratam e a condição social atual não é mesmo?
A Biblioteca de Alexandria foi forjada por Ptolomeu II. Foi incendiada por Árabes? É o que eles disseram. Em 2003 foi construído nos arredores a Biblioteca de Alexandria II, cujo complexo abarca uma Planetário, Museus… Nem é preciso dizer que isso tudo desconstrói a ideia de países africanos miseráveis certo?
Sensacionalmente, já na história clássica se configurou o Templo de Éfeso, ou de Artémis, a deusa da caça e da família, como um local milenarmente sagrado, o qual sincronicamente passou a comportar a qualidade de local de adoração à divindade o qual após se tornar um monte de pedras foi ressignificado, visto que não se aceitou a sua reconstrução, pois seria uma afronta à própria Artémis.
O que ninguém disse durante um bom tempo é que um tal de Erostrato incendiou o Templo para que seu nome nunca fosse esquecido, isso ocorreu na noite do nascimento de Alexandre Magno.
Sartre em sua oportuna escrita filosófica por meio de contos desenvolveu uma obra chamada O Muro e dispôs os mesmos em narrativas distintas e que questionavam a alma humana bem como a sua noção de existência apesar de uma tendência mundial ao que se chamava de progresso e avanço democrático.
Por meio de dicotomias, ele discutiu em seu texto chamado Erostrato a morte de um ser humano incendiando o seu convívio social por meio da morte em série e a do próximo. Hoje isso ocorre nos EUA sob o nome de AMOK. Mas naquele período de Privação, nem Freud daria conta dos efeitos da guerra e do progresso na alma parisiense de Paul Hilbert. Eu li esse texto com 18 anos.
A sublime tarefa de resgatar em minha memória algo lúcido e político em meio à comoção no Rio de Janeiro em prol da queima do Museu Nacional me fez pensar: quem em um dia ensolarado sairia da sua casa para atear fogo em um monumento e centro de pesquisa tão importante? Ou seriam pessoas?
Imediatamente quando na segunda-feira seguinte à tragédia eu vi tantos escombros e cinzas via redes sociais e escombros como não me colocar nas Cinzas, Ruínas e Pó dos locais pelo mundo e ver como a humanidade lida com essa condição dos seus monumentos.
Ao observar esses locais hoje em geral tudo foi ressignificado, ou sobre os locais houve o que chamam de “modernização”. Com algumas exceções e zelo podemos chegar por exemplo à Croácia e ver que nos locais de combate os locais foram preservados fisicamente e ressignificados mediante a solenidade que merecem pois muita gente foi fuzilada em locais públicos e isso era legal para os regimes estatais eem última análise, estados naziztas. As suas cidades hoje são cenários para Filmes.
A Croácia me ensinou que não é derrubando as coisas e construindo sobre os escombros que se preserva as memórias, mas sim a materialidade que constitui a reflexão, e, por isso se faz tão necessária a existência e manutenção dos museus sejam nas esferas públicas, nas ruas, quanto nas esferas privadas, ou locais em que se preservava a esfera privada, em espaços fechados, particulares ou cedidos, não importa.
O Templo de Éfeso, Atual Turquia não foi reconstruído, e, dado o que aconteceu no domingo, dois de setembro de 2018, tudo indica que o Brasil não tenha condições de reconstruir seu monumento bicenternário.
O local continua em formato de ruínas constituindo a sua função, espaço sagrado, mas também possui o turismo como um elementto de significação. A Turquia é o corredor entre países asiáticos e europeus, e uma portaria para os países africanos árabes, com riqueza imaterial cultural sem tamanho.
O que o Brasil faz com a sua riqueza concreta, material e imaterial? O que faremos daqui pra frente?
Delega às instituições como foi feito com o museu emquestão associado à UFRJ que severamente teve seus investimentos cortados. O Estado Brasileiro, age como o Erostrato botando fogo em tudo via a ação da omissão paradoxalmente.
O Brasil não se preocupa com as individudalides a partir do momento em que confere aos cidadãos falta de acesso a educação de qualidade, saneamento básico, saúde, promove o genocídio das minorias inseridas numa condição de vulnerabilidade bicentenária, se essa análise for forjada a partir dos preceitos macroeconômicos então, aí que se vê como o interesse de minoria lucradora(de tempo, recursos, culturas) se prevalece.
Tudo isso para ratificar que o Museu Nacional não deve ser reconstruído, o Brasil não tem essa capacidade. O país que deveria ser Pátria Mãe Gentil, trata seus filhos com mão de ferro, fogo, tiro, porrada e bomba.
O Erostrato de Éfeso perpetuou o seu nome na história mesmo com uma política romana de não perpetuação na história. O Erostrato sartriano se fez por expor o que se passava na sua amarga e enfadonha individualidade, que representava o excelente status quo de sua época, e O Erostrato Brasileiro, o próprio Estado está implodindo o que há de mais valioso com argumentos sólidos que visam manter o bem estar de alguns sob o genocídio socioeconõmico de uma população trabalhadora que convive com o descaso desde a fundação da Terra de Santa Cruz, Terra Brasilis.
Com a Constituição de 1988 sendo aplicada deste modo estamos fazendo o nosso próprio Leviatã político, com uma democracia que se mescla com autoritarismo e conservadorismo, mesmo sob a premissa de Estado Laico.
As Instituções estão se enfraquecendo e as pessoas morrendo por falta de políticas simples e crescem os números de suicídios. A alma humana e a sua produção cultural não são vistas de forma solene e nem com respeito.
Com esse acontecimento com um patrimônio tão importante o que se vê é um o Brasil não respeitador nem das suas cinzas, nem dos seus filhos de carne e osso com a ausência de alteridade com o seu legado.
Saudações.
C.
